A vantagem de ter uma mãe com mão boa para doces é que a gente passa a infância inteira se empanturrando com delícias dos mais variados sabores, formas e cores. Lá no sítio, Santo Antônio sempre foi muito popular e todo dia 13 de junho a gente toda já sabia: era noite de quermesse na igrejinha da vila. Em outras palavras: dia de curtir fogueira, se vestir ainda mais de caipira, dançar quadrilha e se empanturrar de gostosuras.
Para minha sorte, a doceira da vila era minha mãe. E claro, nesta época era quando ela mais precisava da minha ajuda na cozinha. Mais mãos, mesmo que pequeninas e sorrateiras como as minhas, nunca eram rejeitadas. Além do quê, era uma forma da gente passar o dia inteiro junto dela. Que fantástico.
Na véspera da quermesse, a função da minha mãe era fazer os doces que enchiam os cartuchos decorados que, no dia seguinte, seriam oferecidos em leilões ou vendidos em rodadas animadas de bingos. Todo mundo em casa pulava loguinho da cama. Quanto mais cedo a gente acordava, mais cedo minha mãe já estava na lida. A lista de delícias era extensa: doces de leite, de mamão, de abóbora, de cidra, de figo, pé de moleque e mais alguma coisinha de última hora.
Enquanto minha mãe mexia os tachos no fogão de lenha, eu e o restante da piazada – meninos e meninas – ficávamos encarregados de fabricar os cartuchos. Minha mãe conseguia dezenas de cones vazios que serviam de base para o porta doces. Depois, a gente fazia uma espécie de funil com cartolinas, que era colado no cone de forma que coubesse uma quantidade de doces que facilmente servia uma família inteira. E aí vinha a melhor parte, que era decorar os cartuchos com florzinhas de papel manteiga, crepom, dourados, prateados e até papel de presente sem uso. Era uma festa. A criançada toca pegava a tesourinha e ia picotando tudo feito traças talentosas que nunca se cansam de picar, criar desenhos e transformar folhas coloridas em belezas simples, mas cheias de significado. Eles eram fechados com laços coloridos feitos em papel retorcido. Alguns ganhavam uma capa de plástico colorido.
E rapidinho surgiam dezenas e até centenas de cartuchos. No dia seguinte, a gente se reunia de novo para encher todas as embalagens artesanais que havíamos criado. E era um doce no cartucho, outro pro bucho.
Tudo pronto, no dia da quermesse a gente ficava disputando qual o cartucho seria o mais bonito. O nosso parâmetro eram os lances do leilão: vencia aquele que interessava mais gente e, portanto, que custava mais caro. Depois da disputa, adivinha o que a gente fazia? Comia mais doces.

Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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