Cecília, minha filha mais velha, começou o sexto ano na escola. Dias desses, ajudando a menina em mais uma tarefa escolar, lembrei de quando eu comecei o "ginásio", que iniciava na quinta série.
Aquele ano - na década de 1980 - foi de muitas descobertas. Duas delas apresentadas por professoras de mesmo nome. Dona Tereza, de matemática, me ensinou a duras penas que os números não eram meu forte. Por mais que eu me esforçasse, não conseguia gostar da disciplina que meu pai lecionava e fazia questão que aprendêssemos. Para honrar a família, permaneci boa aluna na matéria até o colegial. Mas a voz da Dona Tereza pedindo para "tirarmos o mínimo (múltiplo comum)" ecoa nas minhas mais enfadonhas memórias do fim da infância.
Com Dona Terezinha, professora de português, foi o contrário. Aos 11 anos, eu já sabia que amava livros. Mas a severa professora da Escola Estadual José Soares Marcondes, a "Escola do Bosque", me fez entender que, para contar boas histórias, era preciso mais que boas ideias. Era preciso paciência, atenção e perspicácia para ler, reler e melhorar os textos. Além, é claro, de dedicação às aulas em que aprendíamos as regras gramaticais.
Das lembranças daquele ano, teve o "concurso de redação" entre colégios estaduais. Minha resenha sobre o livro "A Ilha Perdida", clássico da Série Vagalume, foi selecionada para representar a escola. Fiquei exultante por ser escolhida pela professora mais querida. Ela corrigiu meu trabalho e pediu para passar a limpo "com letra bonita". Canhota, estabanada e pouco apegada aos detalhes estéticos, apesar de ter escrito o texto várias vezes em folhas de papel almaço, o resultado final não foi aprovado pela mestra.
Triste por decepcioná-la, apelei para a excelente caligrafia da vó Emília, que nunca cursou o ginásio mas tinha um português impecável e uma das letras mais bonitas que já vi. Dona Terezinha aceitou o trabalho com cara de que entendeu o truque e até expôs minha redação com caligrafia perfeita no mural.
Nunca mais soube da minha primeira professora de língua portuguesa, mas, desde os tempos de ginásio no Bosque, tenho certeza que fui uma de suas alunas preferidas. Na sexta série, Dona Sílvia assumiu as aulas de português. Mas, na memória daqueles anos, permanece a imagem da professora sisuda que sorria com olhos diante do meu caderninho brochura cuja etiqueta indicava "Língua Portuguesa".

Carolina Avansini é jornalista na FOLHA

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