Segundo dados do Ministério da Agricultura o Brasil ocupa o 4º lugar no ranking dos países produtores de carne suína, sendo o maior exportador mundial. A região sul é a principal produtora devido ao fato de que os imigrantes vindos principalmente da Itália e Alemanha foram os responsáveis pela expansão da suinocultura no Brasil, através da preservação de seus costumes e tradições. Inicialmente se instalaram em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, migrando mais tarde para o Paraná, com a ampliação da produção de milho. No Paraná, a suinocultura se concentrou na região de Toledo, onde ocorre a tradicional Festa Nacional do Porco no Rolete.
As imagens dessa festa sempre me fazem lembrar o que acontecia em minha casa quando era criança. Morávamos numa cidade do interior e era comum que os parentes vivessem na mesma casa, principalmente os italianos. Por isso, a casa era grande e ficava num terreno de 800 metros quadrados, onde havia horta e vários pés de frutas, além do curral das vacas e do cercado dos porcos. A cada três meses as porcas davam oito ou nove filhotes, fazendo da criação de suínos uma atividade importante para o sustento das famílias.
Meu avô, o imigrante alemão Karl Gremelmaier, sempre era chamado para sacrificar um animal quando alguma família necessitava. Ao longo dos anos, desenvolveu tamanha perícia, tornando-se uma referência nesse serviço junto à comunidade. Com o abate de um ou dois suínos de grande porte, começava um verdadeiro mutirão comandado pelo meu outro avô, o nonno Melatti. Na execução dos trabalhos, cada pessoa tinha suas tarefas definidas, respeitando a hierarquia e a sabedoria dos mais velhos. As crianças ficavam apenas assistindo, fascinadas pelo burburinho das conversas e cantorias, pelo cheiro dos temperos e frituras e o alvoroço do trabalho de produção de linguiças, morcelas brancas, codeguins, chouriços, toucinho, torresmo, defumados e outros. A lida iniciava por volta das 7 horas da manhã e em torno das 11 horas já estava servido o almoço pela família anfitriã que, conforme a sua origem, preparava pratos da culinária alemã (purê de batatas, chucrutes e salsichões) ou italiana (espaguete, salada de radiche, queijo e salame). Primeiro eram servidos os homens e as mulheres. As crianças comiam por último, o que era um hábito daquela época.
Ao fim do dia, após guardarem as carnes em latas de banha e os embutidos nos varais da despensa, os donos da casa agradeciam a colaboração dos vizinhos, retribuindo-lhes com pedaços de carne, linguiças ou miúdos.
Essa atividade em comum se repetia constantemente em outras casas da redondeza, ajudando os mais jovens a aprenderem os conceitos de respeito, convivência e solidariedade.

Gerson Antonio Melatti é leitor da FOLHA

mockup