Em uma semana, dois assaltos. Foi o "convite" que faltava para meu pai decidir: "Vamos embora daqui, não dá mais pra viver em São Paulo". Entendia, mas doía saber que ficaria longe da melhor amiga Danila e de outras coisas do cotidiano das grandes cidades. Conforme prometeu, Dani cumpriu e, em meu último dia como moradora da capital, a melhor amiga até hoje fez que rodássemos o dia grudadas, passeando pra lá e pra cá, junto com sua mãe, uma Elena sem o H, e uma daquelas grandes mulheres que se desdobram em mil.
Acostumada às férias e passeios no interior, a ideia da mudança não só me assombrou, mas fez do primeiro ano em Pirassununga um terror. Cheguei a ser a única, na única sala de cinema da Cidade Simpatia. Em pouco tempo, o sotaque mudou e Danila já me chamava de amiga caipira. Quando me visitava, zombava das amigas novas, todas caipiras no jeito de falar.
No Instituto de Educação Pirassununga, conheci uma das professoras mais bravas. Dava aulas de Arte em uma sala especial, no porão, e vivia a reclamar, acreditem, até do barulho das cigarras. Delicada no vestuário, Isabel trazia as nervuras das camisas de cambraia de algodão passadas com esmero, mas era áspera no falar, no pisar e no olhar. Todas as vezes que ela chiava do som das cigarras do interior, eu me lembrava das buzinas e da fumaça da capital, com as quais os nossos professores do Alberto Levy, na avenida Indianópolis, tentavam conviver com harmonia. Percebi que o estresse está dentro de cada um, não importa o lugar onde viva.
No campus da Unesp, em Bauru, tive vários encontros com a natureza. Feito "Magali" que sou na hora de comer, vez ou outra atacava os pés de carambola, sempre fartos, e não era raro ter uma aula interrompida pela presença de um gambá. Mas surpresa mesmo para a maioria da turma, eram as aulas de Comunicação Rural. Um bom exemplo, o encontro com o famigerado mata-burros que o professor Denis precisou explicar várias vezes o que era para os caipiras da cidade.
O mata-burros foi uma lição e tanto em um domingo de campo, na Fazenda Água da Faca. Isabela, que pouco depois da formatura, em 1999, faleceu de aneurisma, era o centro das atenções e dizia que nem queria voltar para a cidade, preferia viver para sempre em um alambique e perto de todas as coisas boas do interior. "Nem boba, nem nada", resumiu um caipira da fazenda, com distinta sabedoria.

Walkiria Vieira é jornalista do NossoDia

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