DEDO DE PROSA
Já se passaram 14 anos, mas as recordações e sensações desses dias permanecem fortes na minha memória. Passar alguns dias no sítio com toda a família - pais, irmã, tios, primos e, claro, a matriarca avó Lourdes - foi uma grande aventura. Nem mesmo a chuva atrapalhou o bom humor e a disposição da turma, que tirou de letra as peripécias do meio rural. A casa grande de madeira, com cômodos espaçosos, acomodou a todos. Eu e meus primos dividimos o mesmo quarto. A família, como sempre animada e criativa, entrou tanto no clima, que cada membro passou a ter um nome indígena, de acordo com a sua personalidade. Como estávamos nas proximidades do Salto do Apucaraninha, que fica em uma reserva de índios, a ideia caiu como uma luva e rendeu boas risadas.
Não havia luxo, mas o lugar tinha o seu charme. Na ampla varanda, com aquele piso vermelhão típico das casas antigas, havia bancos encostados nas paredes e uma mesa de sinuca. Dali, o que se via eram árvores e um gramado, onde circulavam galos e galinhas. Tudo muito diferente para quem está acostumado com barulho de trânsito e com paisagens totalmente urbanas.
Naqueles poucos e inesquecíveis dias, pudemos despertar com as galinhas, ouvir os pássaros e sentir a brisa agradável das árvores. No fim da tarde, a avó Lourdes nos presentava com uma deliciosa fornada de pães caseiros, uma de suas especialidades. O cheiro de pão se misturava com o de café - sempre passado na hora - e reunia a todos em volta da mesa.
Durante o dia, de tênis, boné e roupas confortáveis, descíamos até o rio para apreciar a paisagem e pescar. Os primos se dividiam com as varas e o tio Tico, pescador da família, ensinava alguns truques. Os baldes ficaram cheios. Sujamos as nossas mãos com terra, pegamos minhoca e colocamos no anzol. Sem nojo e nem frescura, colocamos a mão na massa e até hoje nos orgulhamos disso.
Quando o sol começava a se por, voltávamos para casa e após o banho e a janta, uma bonita cena se formava. Diferentes gerações se reuniam na sala apenas para desfrutar do prazer de ficar juntas. Nada de televisão, celular, internet. A diversão era ouvir histórias, dar risadas e cantar. Lembramos muito do avô Dorival, que não estava mais entre nós, e que sempre valorizou esses momentos.
Os dias passaram rápido e logo cada um precisou voltar a sua rotina. As experiências vividas, porém, nunca serão apagadas. Assim como me ensinaram, quero também transmitir ao meu filho os encantos da vida simples e a importância da família.
Paula Costa Bonini é repórter da Folha





