Bons modelos são pra toda a vida, e servem para nos ajudar a vencer os momentos desafiadores nunca imaginados. É assim quando temos boas mães, daquelas que cuidam também das nossas emoções, que nos educam, nos guiam e nos dizem não quando preciso. Boas mães são a nossa referência e nosso porto seguro. Sorte de quem as tem por perto, mesmo estando a quilômetros de distância.
Felizmente, mães não são seres sempre lindos, perfeitos e infalíveis, como nos fazem crer as propagandas. Falham, têm dúvidas e, às vezes, também precisam de colo. Mas quase sempre são guerreiras diante das necessidades dos filhos.
Conheci este lado de minha mãe quando, às vésperas de completar seis anos, uma nefrite (inflamação nos rins) grave obrigou o médico da família a indicar minha internação em um grande hospital de São Paulo. Ela, com outros dois filhos pequenos e uma jornada de trabalho exaustiva, passou a se dividir entre a Capital e a pequena cidade do interior, percorrendo, semana sim, semana não, uma distância de quase 600 km.
A viagem não era das mais fáceis, muito menos os dias da minha mãe naqueles corredores imensos cheirando a remédio, à espera dos poucos momentos que podia passar com a filha. Os temores daqueles dias nunca saíram de minha memória, assim como não esqueci a dedicação daquela mulher, que mesmo sem conhecer a metrópole e ser avessa a viagens, encarou com garra incomum a nova rotina. Anos mais tarde, quando um dos meus filhos caía doente, era nisso que pensava para me fortalecer.
Com os anos de profissão, conheci outras mulheres que, sem pestanejar, abriram mão de parte de sua existência para lapidar outras vidas. Elas deixam a cama ainda de madrugada, cozinham, carregam os filhos nos braços, enfrentam o sol, a chuva e o peso da enxada quando têm o campo como universo. Nas cidades, vencem as batalhas diárias dos ônibus lotados, das jornadas extenuantes, das disputas nem sempre justas para provar o quanto são capazes, mesmo tendo que se dividir em duas, três, ou mais.
Tomara que pelo menos no domingo dedicado a elas, todas possam se reconhecer em toda sua importância, e que mesmo estando longe dos filhos, possam se reabastecer do amor que sentem. Tomara que amanhã o sol de outono esteja ainda mais claro, que as flores (mesmo que entregues por um motoboy apressado) não murchem tão facilmente e que os abraços durem mais que um segundo. Tomara que o Dia das Mães seja mais que a frase feita espalhada pelas vitrines da cidade.

Silvana Leão é jornalista na FOLHA.

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