Dona Celina Cobra era daquelas senhoras sozinhas, ditas velhas rabugentas. Não fazia questão da amizade de ninguém, não cumprimentava as pessoas e vivia de mau humor. Com distinção, Celina Cobra, sim, esse era seu nome de batismo, fazia questão de dar à sua pessoa, a conotação pejorativa que o réptil possui.
Do bazar para a paróquia, da paróquia para a venda do seo Dito, vivia de cara amarrada e a criançada era alvo de suas reclamações infundadas. No que dependesse da megera, a rua José Neves, embora no agito de São Paulo, mantinha todo jeito de cidade pequena. Criança não brincava, não pulava, não saia de casa. Não podia cantar, jogar bola e ai de quem passasse debaixo de sua janela. Celina Cobra se especializou em lançamento de balde d´água à distância. Podia ser de manhã, no fim do dia ou nas férias escolares, lá estava ela de plantão, pronta para atirar um balde de água fria em que quer que fosse.
A turma imaginava que a Cobra ficava escondida, espiando pelas frestas da veneziana de madeira e numa agilidade velada, vupt, era água para todo lado. Talvez fosse essa a diversão de dona Cobra, tão sozinha, tão vazia e cheia de maldade em seu coração. No casarão de seis quartos, a solidão era sua grande companhia e lá ninguém além de Dona Cobra entrava para limpar as janelas, arrancar as pragas do jardim, ou os pelos de seu coração.
Ninguém conseguia imaginar a dona Cobra criança. Com esforço, o máximo que acreditavam é que tenha sido uma cobrinha. Os meninos, em sua maioria na rua, viviam de mal da vizinha, afinal, na rua onde moravam, futebol era palavrão. Comemoração era intriga e assim, a pelada ficava restrita à escola, onde Cobra não tinha como proibir a brincadeira, a felicidade e a liberdade, assim como a bola, de rolarem soltas.
Dos adultos, ninguém se atrevia a enfrentar dona Celina Cobra. A impressão era que todos, um dia, foram vítimas de seu veneno e, fragilizados, pareciam sem força para combater a mãe da rua. Mas enquanto Celina sentia-se poderosa pela posse do concreto, os mais sábios da rua José Neves divertiam-se trocando receitas, vendo filmes uns nas casas dos outros, emprestando uma xícara de farinha que faltou para o bolo da criançada, ou umas gotinhas de remédio para o bebê febril por conta da vacina, como bons vizinhos que eram.

Walkiria Vieira é jornalista do jornal NossoDia

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