Na cidade onde nasci e cresci, demorou a ter supermercado. Tal loja nem era tão necessária. Tudo que a gente precisava passava em frente de casa. O segredo era ter bons ouvidos para identificar, na pasmaceira diária da rua, qual era o vendedor que se aproximava.
De manhã cedo, o trote lento do cavalo misturado ao som da roda de carroça girando no asfalto era sinal de que o padeiro estava na "rua de baixo". Nesta hora, eu já tinha que estar lavada, pronta dentro do uniforme da escola, para buscar o pão na charrete que passava na esquina de casa.
Na escola, o barulhinho da máquina de descascar laranja era a portadora das boas notícias: quando o "tio" parava na porta do colégio com seu carrinho de frutas, estava próxima a hora de ir embora. Com centavos, a gente comprava uma fruta perfeitamente descascada que ajudava a enganar a fome até chegar em casa. Tinha laranja e também cajá-manga, uma iguaria lá da minha cidade que nunca vi por aqui. Só de pensar em cajá-manga de textura fibrosa e sabor marrento, minha boca enche de água.
À tarde, uma verdadeira feira passava por nossa pacata rua. Cada vendedor tinha um jeito singular de avisar que estava chegando: o verdureiro tocava um sino e gritava "veeerdureiro". Já o vendedor de ovos anunciava a proximidade aos berros de "oooooveiro". E tinha também o "couveiro", de quem minha avó comprava a folhagem que era minuciosamente cortada em tirinhas para enriquecer a "mistura" do dia.
Sem hora definida, o sorveteiro parava na calçada e buzinava insistentemente até alguma criança sair na varanda com moedas desesperadamente garimpadas em bolsos, cinzeiros e potinhos. Quando dávamos sorte de encontrar uma nota, era dia de "moreninha": sorvete de massa na casquinha com cobertura crocante de chocolate.
O comerciante mais inusitado, de quem ainda me lembro da voz e do gosto açucarado dos doces, era o vendedor de cocadas. Ele passava às terças e quintas, anunciando "paçoquinha caseira e cocada, do tamanho de um pneu, do tamanho de um pneu!" O "pneu" era uma cocada maior que um prato de sobremesa, feita com coco e melado de cana.
O exagero no dimensionamento do doce era o segredo do sucesso do vendedor. Marqueteiro sem saber, ele conquistou freguesia fiel durante os anos em que trabalhou na nossa rua. Quando, já idoso, deixou de passar sem ao menos se despedir, a vizinhança ficou triste. A partir daquele dia, só nos restou o consolo das famosas pamonhas de Piracicaba.

Carolina Avansini é jornalista na FOLHA.

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