As Lojas Noroeste marcaram minha infância. Ali comprávamos de tudo e, com a devida autorização dos pais, assinávamos as notas para o pagamento no final do mês. Havia uma relação de confiança mútua e, mais do que isso, naquele grande armazém de secos e molhados nos sentíamos importantes (mesmo que a nossa compra não passasse de algumas guloseimas).
Na padaria do Toninho, então, a coisa ia mais longe. No final da tarde, quando as tarefas no comando das fornadas sossegavam, ele ia para a porta do estabelecimento receber os clientes. Além de saudá-los, tinha sempre um sorriso no rosto. Foi a forma encontrada pelo ex-boia-fria para conquistar e manter consumidores fiéis, que até hoje não ficam sem o seu pão, nem sem sua boa conversa. Toninho - que agora trabalha acompanhado dos filhos - sempre reserva alguns minutos de atenção a quem entra em sua padaria, nutrindo também a nossa alma.
Dizem que estes são costumes de cidade pequena, que nos centros maiores ninguém tem tempo para este tipo de ''frescura''. Uma pena, porque clientes são pessoas, e pessoas gostam de receber atenção, ser tratadas com respeito, ser surpreendidas com pequenas gentilezas.
Fiquei me perguntando, dias desses, como Toninho, o comerciante boa praça da cidadezinha, reagiria diante do tratamento dispensado aos clientes por alguns colegas seus da cidade grande. Ao entrar em uma loja de conveniência, me deparei com o atendente do caixa - provavelmente o dono - em um papo animado em alguma rede social, pelo seu celular de infinitos recursos. Fiquei alguns segundos ali, parada, esperando que o homem me enxergasse e tivesse a boa vontade de receber o pagamento pelos frios e pães que eu tentava levar para casa. Só consegui ser vista depois de recorrer à velha tática do pigarro, e mesmo assim o aprendiz de comerciante olhava mais para a tela do que para mim.
Saí dali sem a menor vontade de dar aqueles alimentos à minha família, e menos ainda de um dia voltar àquele lugar. Pensei nos velhos amigos da Casa Noroeste, no Toninho e seu riso aberto, nas pessoas que gostam do que fazem, nas ''frescuras'' que não são frescuras. Decidi que não entro mais onde não me enxergam, não dou mais o meu suado dinheiro a quem dá mais atenção às máquinas que às pessoas e resolvi evitar os lugares onde outros sons superam o ruído dos diálogos. Fiquei mais seletiva em minhas escolhas, e descobri por que alguns comércios não vão para frente.

Silvana Leão é jornalista na FOLHA.

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