Nas penúltimas férias, decidi que passaria alguns dias com minha irmã e o namorado dela na casa deles, no Mato Grosso. E por ali, experimentei aventuras nunca antes vividas e descobri como a vida pode ser simples se a deixarmos ser.
Um dos dias mais especiais da visita aconteceu na cidade de Nova Xavantina, onde dirigimos em busca de cachoeiras. Já havia visto cachoeiras antes mas nunca mergulhado em suas águas cristalinas e refrescantes. A primeira sensação foi de medo. Do toque da água gelada, de escorregar nas pedras, de perder o fôlego onde a piscina natural não dava pé.
Após a primeira travessia, um tanto atrapalhada, cheguei à queda d`água, que proporcionou um efeito terapêutico, ainda que eu e minha irmã escorregássemos nas pedras, sentindo a correnteza nos levar contra a nossa vontade.
Me senti leve e limpa. O calor era tanto que a água mal deu conta de esfriar nossos corpos e a sensação era de conforto. Areia nos pés e peixes passeando pelas pernas enquanto observava o mágico recorte de natureza na Ilha do Coco.
Alguns minutos de chacoalhadas pela estrada de terra e adentramos uma propriedade que dava acesso ao Rio das Mortes, que deságua no grande Araguaia. Após pedirmos permissão para um mergulho, descemos até a margem e nos deparamos com um por do sol bastante pacífico.
O rio, de águas límpidas e refrescantes, era convidativo, mas me permiti apenas molhar as pernas e mãos enquanto os peixinhos beliscavam minha pele. Queria só contemplar e salvar a imagem na memória, já que a câmera fotográfica tinha ficado sem bateria.
O sol finalmente caiu por trás das árvores e nós caímos na estrada outra vez. No meio do caminho teve até uma cascavel, que chacoalhava brava enquanto rastejava rumo à mata. Gado, cavalos, uma casa aqui outra ali em meio ao cerrado e 30 quilômetros até a cidade, em companhia da lua e das estrelas.
No interiorzão do Mato Grosso, as pessoas têm um jeito tranquilo de viver e o silêncio só é interrompido pelo cantar dos passarinhos. De manhã, o sol acorda a gente gentilmente e dá uma preguiça de levantar. É da cama para a rede.
A mente não está no presente. Não está no passado e nem no futuro. Simplesmente está. Absorvendo a vagareza, a simplicidade, a natureza.
Naquelas férias, houve um resgate da irmã, o descobrimento de um amigo, o autoconhecimento. Um céu azul, uma brisa, um gato ronronando e um instante de felicidade.

Mariana Guerin é jornalista na FOLHA

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