Com sabor de infância

No dia em que a professora mandou um bilhete para casa pedindo que, a exemplo das outras crianças, minha filha de três anos também levasse bolachas recheadas, fiquei surpresa com a incoerência. "Fessora - pensei em responder -, larga disso, vâmo taca fruta nessas criança, fazê um piquenique, cada uma traz uma diferente e rende uma salada colorida. Vai se uma fartura só". Mas não respondi. Até porque passo longe de ser uma ditadora da alimentação saudável. Segui montando a lancheira de forma equilibrada: uma fruta, um suco, uma gelatina, um pãozinho ou um biscoito de sal ou leite, mas preferi deixar a bolacha recheada que ela nem come para ocasiões fora da escola ou nas datas de lanche livre em que as crianças se fartam de guloseimas.
Não respondi. Mas entendi por que para mim era tão natural gostar das coisas simples, sem embalagens coloridas, sofisticadas ou modernas. Aprendi a descascar laranja cedo, vendo minha mãe conseguir tirar a casca inteirinha e exibir a espiral tom sobre tom. Cada um dos três filhos ganhava a sua e acreditava que era sinal de sorte. Mamãe adorava roubar nossa tampinha.
Quando a laranja tinha casca fina e fazia buraco, mamãe dividia de forma a não perdemos o suco. A mulher do lar era mais habilidosa que um matemático na hora de fazer o corte certeiro. A segunda-feira era o melhor dia do recreio na minha escola. Privilegiada que era, morava em condomínio fechado em São Paulo e ainda tinha a sorte de a minha casa fazer muro com o da escola. Não dava outra: eu e as meninas fazíamos fila enquanto a mamãe descascava com o maior prazer, a laranja que nossa família havia colhido no domingo, na chácara. Tio Manuel plantou laranjeira, banana, vassoura, abacaxi, fruta-do-conde e não se esqueceu das abóboras, muito apreciadas pelos porcos.
Houve um ano em que estudei na mesma sala que meu irmão. Era época de tangerina e quando alguém falou "nossa, que cheiro de tangerina", fiquei quietinha. A denúncia estava feita e eu sabia de onde vinha o cheiro da fruta. Fiquei quieta, com vergonha e imaginei que meu irmão Washington não tivesse resistido. Era difícil mesmo.
Sobre o pedido da bolacha recheada, também fiquei quieta, mas não por vergonha. Cobrar a bolacha recheada era querer apagar minha infância à sombra do pé de manga e toda a variedade de laranjas que sempre apreciei. Era eliminar todas as possibilidades de sabores que a criança pode conhecer, em uma fase tão importante. Eu agradeço por minhas filhas gostarem do que gostamos em casa, do gosto da fruta, do cheiro de comida de verdade e comerem sem frescura o que tem para comer.

Walkiria Vieira
é jornalista na Folha

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