DEDO DE PROSA
Férias era tempo de brincar no sítio. Época de aprender outras lições que também carregaria para o resto da vida. E era tudo tão fantástico que os dias pareciam voar na mesma velocidade da nossa imaginação de criança. Naquele tempo, óbvio, não havia TV, videogame, carrinhos com controle remoto, parque aquático, shopping center... As brincadeiras surgiam com as coisas que tínhamos por ali mesmo. Coisas que arrumávamos no quintal de casa.
Um sabugo sem os grãos de milho virava gente, animais, monstros. Bastava arrumar uns gravetos e colocar a cachola para funcionar. Com quatro perninhas e dois chifres, o sabugo se transformava em vacas, bois e outros bichos. Com duas perninhas eram xerifes, cavaleiros ou malfeitores. Sem perna nenhuma e com dois pedaços de bambus nas laterais fazíamos um avião. E assim eu e a turma passávamos tardes inteiras compartilhando sonhos.
Com um punhado de pedrinhas disputávamos partidas duríssimas de bugalha. Escolhíamos as pedras mais roliças e fazíamos elas girarem no ar cheias de efeito. O desafio era conseguir pegá-las novamente sem deixá-las cair. Vencia quem conseguisse somar o maior número delas. Confesso que raramente era o campeão. Nunca entendi a razão pela qual quase sempre elas escapavam por entre meus dedos.
No quintal de terra batida e lisa que ladeava a casa do sítio a gente desenhava um imenso tabuleiro e emendávamos numa interminável partida de gude. "Teco, teco, teco, teco, teco, na bola de gude, era meu viver." A coleção guardada num singelo saquinho de estopa aumentava ou diminuía na medida em que se ganhava ou perdia. Verdes, azuis, transparentes, de ferro... Elas tilintavam nervosas pelo campo de jogo. Batiam, batiam, batiam umas nas outras até completar todos os buracos do percurso. Era fascinante.
E férias também era tempo de futebol. A canelada comia solta no campinho improvisado no meio do pasto, cheio de cocô de vaca. O campo acabava na cerca de arame. A bola, velha e meio murcha, sofria nos nossos pés cascudos e indecisos. Mas a alegria do gol era a mesma dos craques da seleção.
A noitinha, depois da janta, a garotada se reunia de novo no quintal para brincar de esconde-esconde, mas a lua cheia do verão iluminava os esconderijos. Até a cachorrada do sítio participava e, vez ou outra, denunciava quem se julgava esperto demais.
Íamos dormir sempre cansados para começar tudo de novo no outro dia. E era assim até que as férias chegassem ao fim.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA DE LONDRINA





