Da janela da sala, era possível apreciar o rio que passava pela propriedade rural que morei durante toda a minha infância e adolescência. O rio, de largura média e água escura, fazia de certa forma, parte de nossa família.
Meu pai dizia que devíamos respeitar aquelas águas, já que era a partir delas que ele irrigava nossa lavoura e, algumas vezes, saciava a fome da família com os peixes dali. O engraçado, é que conforme eu me transformava ao longo dos anos, a utilidade daquele rio também parecia sofrer mutação, como um ser vivo.
No início de minha vida, quando eu e meus irmãos éramos pequeninos, na sua margem que aconteciam as brincadeiras mais divertidas. A tirolesa que o atravessava de fora a fora nos fazia cair naquela água gelada e profunda. Mamãe ficava preocupada que algo acontecesse, gritava para que brincássemos mais longe dele, mas quem a escutava?
Na adolescência, conheci o silêncio num barco em meio ao rio. Aos 14 anos, "quase um rebelde", falava pelos cotovelos e desafiava meus pais em qualquer ocasião. Então, certa vez, saí com o patriarca para pescar. Na primeira meia hora de pescaria, enquanto eu estava agitado e tagarela, não fisgamos nada. Meu pai então pediu silêncio e me disse. "Quem muito fala, muito erra. Nossa língua é indomável. O homem doma as feras do campo, as aves do céu, mas não consegue domar a língua. Se ficar em silêncio, os peixes virão". Aprendi a lição e me tornei um grande pescador. Aprendi também a apreciar o silêncio na beira daquele rio.
E foi dentro dele que a maior transformação da minha vida aconteceu. Certa vez, um pastor de uma igreja ali de perto resolveu fazer um batismo de diversas pessoas em "nosso rio", bem ali em frente de casa. Curioso, desci até lá para acompanhar o evento. Para as pessoas que estavam ali, o pastor lembrou as palavras de Mateus 3, versículo 16. "Assim que Jesus foi batizado, naquele momento os céus se abriram, e Ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e pousando sobre Ele."
Aquelas palavras tocaram meu coração de tal forma que eu também quis ser batizado. Quis conhecer este Espírito Santo que desceu em formato de pomba para o filho de Deus. Lembro-me que depois do mergulho, fiquei procurando a ave, esperando que ela pousasse em meus ombros, o que não aconteceu. A verdade, é que naquele momento, a ave já estava habitando meu ser.
Hoje, olho para trás e relembro tudo o que vivi próximo àquelas águas. Infelizmente, não posso passar mais nenhum instante perto dele, já que aquelas terras foram vendidas e a minha vida seguiu outro rumo. Felizmente, guardo estas histórias em minha memória.

Victor Lopes é jornalista da FOLHA

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