DEDO DE PROSA
A vó Ana era a simplicidade em pessoa. Baixinha, com mãos e rosto judiados pela lida, mantinha sempre um cigarrinho de palha aceso na boca. Seu único vício. Talvez não o único, já que teve uma dezena de filhos. Três do primeiro casamento com o vô Lázaro. Um rapaz que morreu novo e que diziam que fazia milagres. Na campa dele, no cemitério da cidade conhecida pelos seus laranjais, sempre teve muitas velas, que o pessoal acendia em busca de uma ajuda do milagreiro. O túmulo também juntava muitas flores, em retribuição à graça atendida.
Quando se viu viúva, a vó Ana achou melhor arranjar um novo homem para ajudar a sustentar os meninos. Casou-se com o viúvo Armando, um alemão alto e loiro que trazia consigo um casal de filhos. Os sete foram viver no sítio, onde se criava porco, galinha caipira, se plantava laranja e a água vinha da bica. Não havia televisão, nem qualquer outro tipo de luxo, a não ser um velho rádio que tocava moda de viola.
A rotina da vó Ana era torcer o pescoço da galinha mais gordinha para preparar de almoço e fritar a banha do porco para cozinhar todo e qualquer tipo de refeição. Tinha dias que a pobreza gritava e a família só comia arroz, feijão e toucinho defumado. O preferido do menino João.
Ele, tão determinado que era - e por não aguentar os maus tratos do padrasto - fugiu para a capital, onde foi morar com as tias solteironas. Levou com ele a tristeza da partida, mas a garra do recomeço. Trabalhou desde os 14 anos, formou-se contador e conseguiu um bom emprego numa fábrica de refrigerantes. Apaixonou-se por uma baixinha de olhos azuis, cunhada de um tio dele, e com ela teve um casal de filhos.
Quando a família se estabeleceu num bairro novo da capital, a esposa sentiu que era hora de visitar a sogra. Economizou no supermercado o mês todo e juntou o suficiente para a família tomar um trem rumo à cidade dos laranjais. No sítio, encontraram a vó Ana magricela, judiada pela vida que lhe impôs o cuidado do novo marido e da dezena de filhos do segundo casamento. Um mais loiro e alto que o outro, bem diferentes dos três meninos de Lázaro. Ela continuava pitando o cigarro de palha e alimentando os porcos e as galinhas. Continuava buscando a água na bica. A quietude da alma da vó Ana emanava na sua fala mansa e conformada. A vida no sítio era simples como ela, que nunca reclamou de saudade do menino João. Ou dos outros filhos que foram buscar sucesso na cidade. Ela era esse silêncio todo e pronto.
Mariana Guerin é jornalista na FOLHA





