DEDO DE PROSA
A sociedade das formigas é o formigueiro, que pode ter até milhões de indivíduos. Estas comunidades são extremamente organizadas e divididas em grupos semelhantes a castas. E são bastante solidárias e prezam a vida em comunidade.
Todas as tarefas são divididas: existem grupos que saem à caça de folhas verdes fora da fortaleza subterrânea, há os que trabalham internamente, há os que se preocupam com a limpeza, aquelas que atuam como soldados e se encarregam da defesa das demais formigas, as encarregadas de produzir o alimento - o fungo gerado pela folhagem levada para dentro da colônia -, entre outras. Existe ainda a rainha, a única fértil do formigueiro, e a responsável por fundar outros formigueiros.
No sítio, a gente se preocupava bastante com os formigueiros. Primeiro porque eles poderiam se multiplicar rapidamente e prejudicar a plantação e os pastos. De tempos em tempos, meu avô jogava veneno nas partes mais infestadas para não deixar que a terra fosse perdida ou que tivesse prejuízo com a plantação. Ele não deixava que a gente o acompanhasse, porque tinha medo que o veneno acabasse nos intoxicando.
Mas além dessa passagem, tinha outra situação que as formigas eram a atração principal. Quando o rio extrapolava o leito e água invadia as partes mais baixas do sítio, elas sofriam um bocado. Mas nem assim desistiam umas das outras e, assim como faziam a vida inteira, continuavam unidas em busca de garantir a sobrevivência. A gente ficava só espiando.
Logo que a água começava a subir e avançar para dentro do pasto, as formigas já se agitavam. Quando a enchente atingia o cupim, elas se juntavam todas formando uma grande bola de inseto. Lentamente, aquele emaranhado de seres pequeninos, minúsculos, quase sem peso, ia aumentando de tamanho e fazendo frente à força da correnteza.
Quando todas estavam juntas, a gente percebia que elas tentavam ir para alguma área onde a água ainda não havia encoberto por completo o mato. Com muito esforço, elas se aproximavam de um galho e se agarravam a ele. Lutavam pela vida com energia e mesmo aquelas que já estavam seguras não desfaziam a colônia. Continuava ajudando suas semelhantes. Ficavam alí até a água começar a baixar.
Naquelas ocasiões, não tínhamos muita ideia da lição ensinada pelas formigas. Hoje, no entanto, percebo a falta que faz a gente prestar pouca atenção às coisas da natureza.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





