Em todo janeiro, nos dias de muito calor e céu azul, meu pai reunia a gente, chamava os primos e os vizinhos, ajeitava a carretinha no trator e colocava todo mundo em cima. Por questão de segurança, colocava a criançada toda sentada e ainda levava junto alguns adultos para fiscalizar a algazarra. Partíamos por estradas estreitas. Os buracos cavados pelas chuvas de começo de ano faziam todo mundo pular feito pipoca.
Ríamos feitos as crianças que éramos. Todo mundo sabia que a aventura estava só começando e que o dia de diversão seria longo, bem longo. Depois de quase uma hora cortando estradinhas de terra, subindo e descendo morro, atravessando pontezinhas e riachos limpos, a turma toda chegava ao destino tão aguardado. De longe, a gente já ouvia o estrondo da água batendo nas pedras e rolando precipício abaixo. Lá embaixo, um lago calmo convidava para banhos demorados. A molecada mergulhava, fazia guerra de água, entrava em baixo das quedas, saltava das pedras e disputava quem conseguia ficar mais tempo submerso.
Depois de brincar e brincar, meu pai reunia todo mundo para matar a fome. Ele levava pão com manteiga de nata, leite, queijo, biscoito de polvilho, doce de abóbora, banana, laranja... Era uma farra e todo mundo se fartava. Por recomendação materna, ele só permitia que a gente voltasse para a água depois de transcorrida uma hora. Dizia que era perigoso e que quem entrasse poderia ter congestão. A gente nem sabia o que isso significava mas ninguém desobedecia.
Até para os cachorros, companheiros inseparáveis, a viagem até a cachoeira era uma festa. Assim que meu pai ligava o trator, eles se agitavam e davam um jeito de seguir junto com a turma. Uns seguiam correndo ao lado. Os mais pequenos se juntavam a nós na carretinha. Na cachoeira, eles percorriam toda a redondeza, fuçando o mato e correndo atrás dos bichos que encontravam nas tocas e buracos. Depois, se jogavam na água, saíam e rolavam no gramado para secar o pelo.
O dia só terminava a tardinha. Quando o sol escondia atrás da serra, meu pai ajeitava as tralhas, colocava todo mundo no lugar e retornava para casa. A folia da manhã dava lugar ao cansaço e todos seguiam cochilando, exaustos e com a alma lavada. Só esperando o próximo banho de cachoeira.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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