DEDO DE PROSA - Zabumba, triângulo e sanfona
O forró seguia quente até altas horas da madrugada e a gente, pivete ainda, se agarrava na cintura das meninas como um legítimo pé de valsa mirim. Era sempre assim nas quermesses de janeiro no sítio. O salão anexo da igrejinha do bairro era todo enfeitado para os bailes de sexta e sábado a noite e todo mundo suava a camisa feito gente grande.
O gosto por forrozear vinha de família. Minha tia, ainda em seus tempos de solteira, tomava aulas de sanfona com o então namorado que viria a ser seu marido anos mais tarde. E ela desde logo demonstrou talento e afinação. Tanto que costumava se apresentar nas quermesses. Dedilhava a sanfona com segurança e fazia todo mundo sacolejar.
Meu tio, ao contrário, gostava mesmo era de dançar. Percorria o salão todo bailando com moças solteiras, casadas, separadas e até viúvas. Podia ficar por horas a fio na pista sem se cansar e não perdia a chance de sacanear aqueles mais jovens que não eram muito afeitos à alegria característica do forró.
O grupo com o qual minha tia se apresentava era bem simples. Ela fazia gritar a sanfona, um primo ditava o ritmo com a batida compassada da zabumba e um domador de cavalo empunhava o triângulo. Como amplificador, usavam uma velha caixa de som e o microfone, os mesmos usados pelo padre da paróquia em dia de missa.
No apertado salão, a poeira levantava mais e mais à medida em que a noite avançava e o povo se animava. Famílias inteiras se juntavam em festa. Moleques, jovens donzelas, a empregada e a patroa, o patrão e o peão... Até o padre, vez ou outra, encasquetava de participar e chegava até a arriscar uns passinhos e ralhava quando flagrava um açanhamento de algum coroinha.
Do lado de fora, amarrados na velha cerca de arame ficavam os cavalos e charretes usados pelos moradores que residiam mais distantes da igreja. Até eles pareciam se animar com a música e a felicidade das pessoas que, ao menos naquelas noites, esqueciam eventuais diferenças e se uniam na celebração comunitária proporcionada pela zabumba, o triângulo e a sanfona.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





