De vez em quando a gente sente umas coisas que não dá para explicar. Dia desses, me deu uma vontade danada de comer ovo de galinha. Na geladeira, tinham lá dois ou três na bandejinha de papelão. Ao lado dos ovos, havia guardado um restinho de arroz do almoço e, no congelador, também tinha uma vasilha com um tantinho de feijão. Juntei tudo e criei uma máquina do tempo que me levou de volta ao passado, quando tinha uns 6 ou 7 anos, morava no sítio e minha mãe fazia esta receita, que ela chamava de ''virado mexido'', para não jogar comida boa fora.
Na roça, era difícil faltar o que comer. A terra, abençoada, nunca nos negava o alimento, fosse como fosse. Em alguns anos mais, em outros menos, mas me recordo de nunca ter passado fome. Havia sempre um tomate para virar salada, um chuchu para fazer refogado, ou, neste meu caso, um ovo que conseguia alimentar toda a nossa família.
Além do mais, minha mãe nunca foi de jogar comida no lixo. Até o que sobrava no prato ou o que não dava para ser reaproveitado era desviado para o quintal e fazia a alegria da galinhada, dos patos e dos cachorros. E não se pode esquecer que no sítio não havia energia elétrica. Portanto, a geladeira só funcionava na casa das tias que viviam na cidade.
Quando as sobras ainda podiam nos alimentar, ela sacava da manga seu ''virado mexido''. A receita era bem simples. Mamãe pegava a sobra do arroz cozido do almoço ou amanhecido. Na mesma panela de ferro, ela juntava uma duas conchas de feijão. Devagar, ia esquentando a mistura no fogão à lenha. Quando a fumacinha começava a subir, minha mãe corria no galinheiro, colhia uns dois ou três ovos grandes e os quebrava na mesma panela. Como tudo já estava quente, os ovos caíam e as gemas iam tingindo de amarelo os grãos de arroz. E enchendo de cheiros a cozinha.
Para finalizar a receita, ela salpicava uma colher de farinha de mandioca que ela mesma torrava em casa e acrescentava uma porção de cebolinha. E a gente comia até ter briga para raspar aquela casquinha queimada que colava no fundo da velha panelinha de ferro.
E foram sensações semelhantes que senti quando abri minha geladeira para pegar um ovo e entrei nesta máquina do tempo que, por um instante, trouxe ao presente a panela de ferro, o fogão à lenha, as galinhas poedeiras e aquele moleque que brigava com os irmãos para comer o restinho do virado mexido.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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