DEDO DE PROSA - Vidas escondidas no envelope
Manifestações de carinho. Desabafos. Oportunidade de reencontro. Lágrimas de alegria e tristeza. Saudades. Rompimentos... Conteúdos escondidos dentro de um simples envelope lacrado transportado por poucos quilômetros pelas mãos do carteiro.
Ele chega à rua, que está quase escondida na última linha do mapa, num bairro povoado há cerca de 50 anos numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, com apenas três mil habitantes. Lá, Antero passa uma vez por mês e, quando chega da cidade vizinha, é recebido como uma visita ilustre. Ele não entende. É que aquele povo, tão distante da tecnologia, ainda se vale das palavras que chegam por meio dele para ter notícias de seus entes que foram tentar a vida longe dali.
Dona Maria, a costureira oficial da cidade, não vê sua filha desde a última Folia de Reis, quando todos os moradores, costumeiramente, chamam a família para cumprir a tradição religiosa que é praxe naquele distrito. A moça saiu de casa logo que completou 18 anos, foi para a capital; lá se casou e teve três filhos. Como mora longe e o dinheiro é curto, junta as economias para passar três dias com os antigos vizinhos durante a festa que leva as bandeiras do Divino.
Hoje dona Maria recebeu uma carta da Geni.''Mamãe, na próxima semana vamos para Moçoró. Já ajeitei a roupa das crianças naquela mala que a senhora fez com retalhos, lembra? Consegui colocar duas mudas de roupa de cada uma e ainda uma saia e uma blusa de lã que fiz para a senhora. A mala está cheia, mas ainda cabe um pote de doce de leite, que vou levar para comermos juntas. Saudades.''
Antero entregou a correspondência, ganhou um forte abraço da dona Maria, e seguiu para deixar as demais antes do almoço porque sua mala ainda estava lotada com as cartas que separou para a tarde. Como ele vai à mercearia do seu Joaquim, precisa adiantar o trabalho, porque lá a prosa segue sem pressa.
Ao final da tarde, sorridente e satisfeito pela missão cumprida, o carteiro se despede do pessoal e volta para sua cidade, certo de que no próximo mês voltará à pequena Moçoró para distribuir as correspondências que arrancam sorrisos e eternizam os laços de amizade. É com lágrimas nos olhos e muita emoção que o meu avô me conta como foi a sua mocidade no interior de Minas. Suas palavras dão vida a cada detalhe que ficou guardado como tesouro na memória.
Aline Vilalva é repórter na Folha de Londrina.





