DEDO DE PROSA - Vida de cachorro
No sítio, a cachorrada sempre foi criada livre. Sempre foram muitos. Mais de cinco, pelo menos. Dividiam uma casinha bem perto da casa de meus avós. Ficava num ponto estratégico do quintal, embaixo da paineira que fazia sombra no jardim que dava acesso à entrada principal.
De noite, eles ficavam por ali, à espreita, mas com os dois olhos quase fechados, cheios de preguiça. Afinal, quase não tinha precisão deles agirem. Não havia perigo. Nem roubo. Nem furto. Naquela época, não se roubava ou vandalizava os vizinhos. Uns respeitavam os outros e pronto. Assim os cães vigiavam a praticamente nula movimentação noturna na roça. Vez ou outra latiam para alguma coruja ou outro animal mais atrevido que decidia se aproximar da casa.
Bastava o galo cantar, porém, para os cachorros despertarem para mais um dia. Meu avô acendia o lampião na casa e daí em diante era um ''Deus nos acuda'' do lado de fora. Para os cães, a luz cintilante que vazava pelas frestas das portas e janelas era um sinal de que em breve teriam boia fresca e água limpa.
Automaticamente, os latidos aumentavam. Começavam um corre-corre no quintal e brincavam uns com os outros. Davam mordidinhas carinhosas, fugiam e depois voltavam rindo. Pareciam agradecer pelo dia que surgia na serra.
Quando meu avô abria a porta dos fundos, que dava acesso à cozinha, era outra confusão. Disputavam a atenção do patriarca cada um com suas armas. Os menores balançavam os rabinhos e lambiam as botas do velho pedindo carinho e comida. Os machos alfa tratavam logo de reforçar quem mandava no terreiro. Ficavam próximos e prontos para as primeiras ordens.
Pacientemente, meu avô acarinhava cada um dos cães, trocava a bacia com água e dava a primeira refeição do dia para eles. Os maiores tratavam de comer rápido, pois tinham que seguir meu avô até o curral, onde as vacas aguardavam a ordenha. Leite tirado, era hora de soltar os animais para o pasto. E a cachorrada atrás, guiando os bezerrinhos ainda meio confusos com o caminho.
Depois disso, enquanto alguns cães voltavam para o quintal, os dominantes seguiam para a lida com meu avô e os outros trabalhadores. Passavam o dia na roça.
Os mais novinhos e as cadelas que amamentavam permaneciam no quintal. As mamães ficavam cochilando num canto e noutro enquanto os filhotinhos gastavam a energia da infância em brincadeiras intermináveis. Quando batia o sono, os pequeninos se aninhavam pertinho da mãe e dormiam o sono dos inocentes.
No final da tarde, os cães retornavam da roça, matavam a saudade das famílias e se ajeitavam no quintal esperando a noite cair, a outra madrugada passar e mais um dia nascer na serra.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





