Na beira do rio Tibagi, próximo ao distrito de Maravilha, um lugar que acalma qualquer estresse da vida repetitiva - muitas vezes chata - que temos que encarar de segunda a sexta-feira. Em toda a minha trajetória, conto nos dedos minhas experiências em ambientes rurais. Só agora percebo o quanto perdi.
Meu sogro, Luiz Antônio, possui um pequeno pedaço de terra próximo ao Tibagi, um verdadeiro oásis nos dias de hoje. Nada de conforto, piscina ou ar-condicionado, quando partimos para a ‘’ilha’’, como dizem minha esposa e sogra, a regra é se desligar do mundo em que vivemos.
Ao chegar na beira do rio, a força braçal do ambiente rural começa a se sobrepor. A primeira tarefa é tirar o cadeado do barco e colocá-lo ribanceira abaixo. É neste momento que meu sogro inicia o teste com os novatos ‘’neste mundo’’.
Funciona assim na cabeça do meu sogro: toda vez que alguém vai para a ilha pela primeira vez (leia-se um homem), a ordem é não dar vida fácil para o sujeito. Tudo fica nas costas do visitante: descer o barco, remar, ajudar a levar os alimentos para a casa. O peão tem que suar e muito pra valer a visita. Na última vez que fomos, em novembro, quem sofreu foi o namorado da prima da minha esposa. Com 14 anos e da geração ‘’iPad’’, o menino teve que se virar na ‘’aula de sobrevivência na selva’’.
Já na minha primeira vez, eu ainda com o título de namorado, lembro-me bem da frase dita pelo sogrão: ‘’Sabe como pegar em um remo?’’, disse com todo aquele carinho. Lembro que patinei no barro, me enrosquei no meio do mato e tudo mais que acontece com quem não sabe nada desta vida.
No início daquele dia fiquei irritado, mas depois fui começando a pegar gosto pelo lugar. No finalzinho da tarde, o barulho da água descendo pelo Tibagi enquanto comíamos um pãozinho com manteiga na varanda daquela casa de madeira, bem simples me conquistaram. Por fim, olhar para o céu e ver o quanto de estrelas realmente há nele é algo fantástico.
Depois daquele dia, notei como este tipo de lugar é revigorante. Voltei muitas vezes na ilha, e espero que meus filhos também possam usufruir daquele lugar. Que meu sogro seja o mesmo linha dura com seus netos, para não perder a tradição. Que a ilha continue sendo um lugar de muitas histórias para contar.

Victor Lopes é jornalista da Folha

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