O fato aconteceu há pelo menos 30 anos, mas a lembrança de ter plantado as duas primeiras árvores da rua da casa onde passei a maior parte da infância continua viva. Era 21 de setembro, Dia da Árvore, quando meu pai chegou com as duas mudas, uma de sibipiruna e outra de ipê roxo, solenemente plantadas em comemoração à efeméride que marca também o início da Primavera.
Recém-chegados de uma cidadezinha pequena, onde havia viveiro de pássaros e pomar no quintal, plantar as árvores em frente à casa foi tão natural quanto trazer a mobília. Para a vizinhança acostumada ao trânsito e à poluição, mas pouco afeita ao verde, porém, nossas árvores foram motivo de curiosidade.
Sem atinar que as duas plantinhas escondidas dentro da proteção de madeira um dia ficariam grandes e ajudariam a combater a aridez do clima do oeste paulista, o pessoal apenas olhava para os mirrados galhinhos sem entender o motivo de tanta dedicação.
O cenário mudou quando, depois de um ou dois anos, nossa calçada sombreada se transformou no local preferido das crianças da rua e dos motoristas em busca de sombra fresca para estacionar os carros. Não demorou muito, gradinhas de madeira começaram a despontar nas outras calçadas. Uma década depois, nossa rua, antes calorenta e sem graça, se transformou numa via arborizada e bonita.
A sibipiruna, imponente, atingiu altura suficiente para sombrear também a nova e moderna casa do vizinho. E aí, nossas árvores se transformaram em problema. As minúsculas folhas, pacientemente recolhidas da entrada de nossa casa por quase três décadas, começaram a incomodar os novos moradores, que sugeriram cortar a sibipiruna e substituir por uma árvore ''mais limpinha''.
Negamos educadamente. Mas o assédio continuou até pouco tempo atrás, quando meus pais finalmente deixaram a casa para morar em um local mais adequado à realidade de quem têm filhos adultos. Antes da mudança, a maior preocupação era deixar nossa sibipiruna à mercê de famílias que não a conheceram quando era apenas um galhinho. Por precaução, fiz questão de contar ao vizinho sobre o significado de cada galho. O menor apoiava bonecas. O maior, no alto, era o esconderijo preferido para comer o último pedaço de chocolate escondido dos primos. E foi encostada no tronco da velha sibipiruna que chorei quando o garoto da rua de cima partiu meu coração pela primeira vez.
Não sei se o discurso comoveu. O fato é que, um ano depois, a árvore continua firme e forte, sombreando a vida de quem continuou por lá. Não tenho mais poder sobre ela, mas o apego é tanto que inventei um novo ritual. Quando volto à cidade da minha infância, além de visitar meus pais e avós, visito também a calçada da minha antiga casa. Se os vizinhos gostam, não sei. Mas tenho certeza que, toda vez que me veem, lembram que a árvore também tem uma bonita história.
Carolina Avansini é jornalista na FOLHA

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