DEDO DE PROSA - Um sorriso banguela
Sempre fui de observar bocas e dentes: os formatos, a arcada dentária, as diferentes nuances de branco que formam os dentes das pessoas. Não sei bem o por quê dessa fixação, mas desde criança é assim.
Lembro-me muito bem de quando dormia na casa da minha avó materna e era surpreendida por uma visão inicialmente aterrorizante: a sua dentadura em um copo de água, cristalina, dentro da geladeira.
É claro que isso só acontecia nas raras vezes em que eu acordava antes da minha avó. O normal era ela acordar antes de mim, ligar o seu radinho de pilha para escutar a sua moda de viola preferida e logo levantar para fazer o meu chá de capim-cidreira colhida na hora, no quintal, ainda com o orvalho da manhã.
O desjejum era modesto, com pão caseiro, manteiga, queijo branco e de vez em quando uma geleia ou doce de leite, mas o melhor era o chá - bem docinho, saboroso e perfumado.
Uma das minhas curiosidades (que nutro até hoje) era saber o motivo dela guardar a dentadura na geladeira. Ficava pensando se a água gelada seria mais saudável para manter o artefato longe dos germes ou se seria só pelo prazer de acordar e colocar uma dentadura geladinha na boca.
Sei lá, acho que no fundo eu tinha era vontade de poder fazer isso também.
Hoje, já adulta, e sempre com muitas saudades da minha avó, fico a pensar nos milhares de desdentados do Brasil que não tiveram e não têm ao menos a chance de ter uma dentadura bem feita e durável dentro da boca ou da geladeira.
Recordo as histórias de luta e tempos difíceis da minha avó, em que ir ao dentista era uma façanha sem limites, quase uma odisseia. Dói um pouco saber que naquela época a falta de acesso à saúde e à educação permitiam que dezenas de dentes saudáveis fossem simplesmente retirados para evitar o "transtorno" de ir ao dentista.
Impressiona-me saber que não fazia parte do repertório dos boticas de plantão orientar as pessoas a como conservar os dentes não cariados. E se hoje a recomendação é trocar a dentadura a cada 4, 5 anos, na época da minha avó ela era para durar a vida inteira. "Pelo menos isso, se serve de consolo", ela diria, com um sorriso maroto - e banguela -, quando eu conseguia acordar antes dela.
Ana Paula Nascimento é jornalista da Folha de Londrina





