DEDO DE PROSA - Um mês cheio de mistério
Agosto sempre foi, para mim, um mês meio sombrio. O vento que uivava a noite toda também chacoalhava os galhos nús do abacateiro e os gravetos raspavam na janela do meu quarto. O ruído era fantasmagórico e demorou para eu acreditar que era mesmo obra só da natureza e não de nenhuma entidade sobrenatural. Para aumentar minha agonia, na região havia a crença de que o mês era época de cachorro louco.
No sítio, meu pai nos alertava sobre os perigos de agosto. Dizia para não darmos ''trela'' para nenhum cachorro ou gato que encontrássemos andando perdido pelos caminhos. O aviso fazia sentido porque não era situação incomum. Sempre havia algum bichano solitário, com cara de fome, pelo ralo e em busca de um bocadinho só de atenção que fosse. Quando criança, já era o bastante para a gente se sentar na beira da estrada, pegar o animalzinho no colo e dedicar alguns minutos ao pobre entre uma tarefa e outra no sítio.
Conforme meu pai, os sinais clássicos da loucura canina e felina eram a boca cheia de espuma, espasmos pelo corpo - principalmente nas pernas - e um certo olhar descontrolado, que não mirava ninguém. Os gatos, dizia papai, tornavam-se mais agressivos que os cães. Mais ágeis e arredios podiam, num lance, provocar arranhões perigosos em quem se aproximasse.
Para aumentar nosso temor, meu pai pintava com cores fortes as histórias - nunca soubemos se, de fato, eram todas reais - de conhecidos deles que haviam sido atacados por cães insanos. Contaminados pelo vírus da loucura, os tais conhecidos teriam se tornado meio lobisomens. Uivavam em noites de lua cheia, ganhavam pelos imensos nas orelhas, narinas, pés e mãos. Corriam atrás de bezerros e animais menores em busca de carne. Por isso, sempre era bom seguir os conselhos dos mais velhos e manter distância de cão ou gato desgarrados.
Contribuía para aumentar nosso medo, o fato de que em todo mês de agosto, o pessoal da Vigilância Sanitária percorria a roça, num dia marcado, para vacinar cachorros e gatos contra a raiva. Tinha anúncio no alto-falante da igreja e tudo. O armazém perto de casa era um ponto de vacinação. Sempre no início do mês, no horário marcado, moradores vinham trazendo na coleira os cães e os gatos em sacos. Os animais, coitados, se debatiam, choramingavam, faziam cara de coitados, atacavam o homem armado com a seringa.
No fim das contas, eram todos picados e imunizados. Só quem continuava ressabiado éramos nós, crianças. Afinal, vacinação era um dia só, enquanto o mês de agosto tinha ainda 31 dias.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





