DEDO DE PROSA - Um galo bem esperto
O galo Tião reinou no galinheiro lá do sítio por quase uma década. Como um monarca absolutista, nada acontecia na comunidade das penosas sem seu conhecimento e consentimento. Mas a idade avançada do tirano foi começando a pesar nas esporas e chegou uma época em que ele governava na base da pompa, do histórico de tirania construído durante os anos de glória e de artimanhas políticas que usava para se manter no poder.
Enquanto era jovem, ele seguia soberano em seus domínios. As galinhas o tinham em alta conta. Tião garantia a segurança de todo o grupo e mantinha os invasores bem longe do galinheiro e tinha especial atenção com os pintainhos e ninhos cheios de ovos. Seus esporões riscavam o chão com tanta força que os inimigos corriam logo que o avistava.
Antes do sol nascer, ele se punha a anunciar o novo dia. Subia num tronco e fazia seu piado soar longe. Com ele, acordavam os vaqueiros e os agricultores que tinham que seguir para a lida. Era o despertador da vila.
Mas embora tivesse um lado protetor e fosse de grande serventia para a comunidade, o galo Tião também tinha seus defeitos. Gostava de passear fora do galinheiro. Sempre que podia, pulava do cercado e dava uma escapadinha até o puleiro do vizinho. Lá, usava a força e os conchavos com outros galos corruptos para farrear com as galinhas alheias e colocar medo nos franguinhos da vizinhança.
Os dias passavam e o estilo de governar de Tião continuava o mesmo: centralizador e cheio de artimanhas que lhe garantiam a manutenção no poder. Porém, o corpo outrora cheio de músculos agora já não mantinha o vigor de antes. Os envolvidos nos acordos políticos feitos no passado começaram a cobrar a fatura e passaram a chantagear o velho galo. E a segurança e tranquilidade que um dia reinou no galinheiro do sítio chegou ao fim.
O velho galo oferecia vantagens para que galos mais novos continuassem o apoiando. Mas quase nunca cumpria o prometido. Sem saída, via seu reinado sucumbir a cada dia. Ameaçado, foi obrigado a ceder à pressão de alguns frangotes que haviam aprendido com ele as falcatruas do poder.
Até que um dia, ao voltar de um de seus passeios, encontrou todo o galinheiro insuflado. Tentou entrar mas foi impedido. Tentou falar e não foi ouvido. Tentou ameaçar mas não foi respeitado. Havia chegado ao fim o reinado do galo Tião, que teve que parar de cantar de galo para não ser banido para sempre.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





