Geraldo conheceu Londrina em um dia de tempestade. Acostumado às manifestações da natureza e sabedor do seu poder, nunca tinha se deparado com uma situação, a seu ver, tão assustadora. Homem criado na roça, limitava-se a dirigir o velho trator do sítio do meu avô e a guiar seu velho Fusca até a cidade nos sábados de manhã, para levar a mulher ao mercado.
Naquele começo de primavera, porém, as tempestades resolveram entrar na vida daquele caboclo. Minha família era também a família dele, e todos nos sentimos profundamente abalados quando sua caçula, então pré-adolescente, começou a apresentar sintomas de doença grave. O médico da cidadezinha aconselhou o assustado pai a procurar um centro médico de ''cidade grande'', e ele, desesperado, recorreu a mim.
Recém-casada, eu já morava em Londrina há alguns anos, conhecia bons médicos e bons hospitais. Em poucos dias, lá estava eu aguardando, aflita, a chegada da querida família. As preocupações eram muitas: Geraldo não estava acostumado a dirigir em rodovias, pilotava um carro que não era seu (e sim do meu pai) e, naturalmente, andava com os nervos à flor da pele por causa do estado de sua única menina, que veio em repouso no banco de trás do veículo. E olha que eu nem imaginava os outros desafios que o amansador de cavalo bravo estava enfrentando.
Ao entrarem na Avenida Tiradentes, depois de quase passarem direto pelo acesso da PR-445, ele e a família foram surpreendidos por um vendaval. Em poucos minutos, se depararam com os problemas das metrópoles. A pista da avenida inundou por causa dos bueiros entupidos, o semáforo parou de funcionar com a queda de energia e a rotatória que devia colocar ordem no trânsito virou um Deus-nos-acuda. Geraldo quase enfartou diante de tanto perrengue.
Chegou em casa com uma hora de atraso e me encontrou na portaria do prédio, rogando aos céus que nada de ruim tivesse acontecido. Ele e a mulher estavam exauridos, e não esconderam o espanto quando abri a porta do elevador. Com a filha nos braços, Geraldo arregalou os olhos:
- Vamos ter que entrar aí?
Eu respondi que era isso ou enfrentar seis andares de escada. Sem dizer palavra, o até então valente caipira procurou com os olhos os degraus e começou a vencê-los, um a um. E assim foi nos 10 dias em que Geraldo ficou em casa, levando a filha diariamente a médicos e hospitais. Ao final daquela temporada, ao constatar que a doença não era tão grave, o casal resolveu tratar a menina em uma cidade mais perto do sítio. Agradecido, o pai se justificou:
- Por lá não tem tanta gente nervosa buzinando para a gente correr com o carro e não tem que entrar em caixas de aço para chegar em casa...
Silvana Leão é jornalista na FOLHA

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