Tonico e Tinoco nasceram lá naquela serra, num ranchinho beira chão tudo cheio de buraco, donde a lua fazia clarão quando chegava a madrugada. Lá no mato a passarada principiava um baruião. Com a viola, eles cantaro e gemero de verdade. Cada toada representava uma saudade.
Com você Tinoco, morreu o úrtimo caipira. A viola parou, pois hoje o jeca quando canta tem vontade de chorar. O choro que vai caindo, devagá vai sumindo, como as águas vão pro mar. Nestes verso tão singelo, para você quero contar o meu sofre e a minha dor. Hoje, Tinoco, eu sô que nem o sabiá: quando canta é só tristeza desde o gaio onde ele está.
Cada vez que me ''alembro'' de ouvir Tonico e Tinoco no radinho rouco do sítio, recordo do amigo Chico Mineiro e das viage que nóis fazia. Era ele meu companheiro também, Tinoco. E eu era um pouco aquele menino que corria abrir a porteira e depois vinha pedindo: ''toca o berrante seu moço, que é pra eu ficar ouvindo''. E quando a boiada passava e a poeira baixava, era eu quem saía pulando e dizia ''obrigado boiadeiro, que Deus vá lhe acompanhando por este sertão afora''.
Hoje, sinto uma tristeza, uma vontade de chorar, alembrando daqueles tempos que não hai mais de voltar. Vocês, Tonico e Tinoco, eram caboclos bons decididos. Na viola eram deloridos e eram os meus peões boiadeiros. Assim como vocês, também viajei com Chico Mineiro por mais de dez anos, vendendo boiada e comprando por esse rincão sem fim. Era um caboclo que nada temia. Mas porém chegou o dia que Chico apartou-se de mim. Com você, Tinoco, fiz a última viagem. Lá mesmo pro sertão de Goiás. Como na canção, fui eu e o Chico Mineiro e também foi o capataz.
Nos caminhos desta vida, Tinoco, muito espinho encontrei mas nenhum caso mais triste do que este eu passei. Hoje na minha viagem de volta, Tinoco, também vi a porteira fechada e não avistei mais o menino dentro de mim. Talvez tenha sido morto por um boi sem coração lá pras banda de Ouro Fino.
Mas tenha certeza Tinoco que você é a cruzinha do estradão, que do meu pensamento nunca vai sair. Tal como você e o irmão Tonico, faço aqui meu juramento. ''Nem que o meu gado estoure, que eu precise ir atrás nesse pedaço de chão, berrante eu não toco mais.''
Luciano Augusto é jornalista na Folha

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