O tempo das vacas magras havia chegado, literalmente, na propriedade da nossa família localizada em Cantu. Na época, eu com 12 anos, não entendia exatamente o nervosismo do meu pai logo pela manhã, depois da ordenha em nossas onze vaquinhas. Mamãe me explicava durante o café - antes do ônibus escolar passar - que ''por algum motivo 'divino', as nossas mimosas não estavam produzindo como antes''.
O alimento começava a ficar escasso em casa. Afinal, era com o dinheiro do leite que meu pai fazia nosso pequeno pedaço de terra se movimentar. Comprava sementes, adubava a lavoura, arrumava uma cerca ou outra, enfim, eram estes animais que nos sustentavam. Nas orações diárias, dona Arlete, minha mãe, lia com muita fé Habacuque 3, versículos 17 e 18. ''Porque ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na videira; ainda que decepcione o produto da oliveira e nos currais não haja gado, eu me alegrarei no Senhor''.
Num dia como outro qualquer, logo depois da sesta, meu pai escutou palmas na porteira. Sem o costume de receber visitas, ficou um pouco desconfiado do jovem rapaz, com cerca de 25 anos, que explicou que o auxiliaria com as vacas de casa. Mesmo sem entender qual era a profissão do moço - ''um tal de zootecnista'' - no desespero, aceitou a ajuda do profissional, que havia sido enviado pela prefeitura para auxiliar o pessoal daquela região.
Nas visitas diárias, Gabriel logo percebeu que as vacas estavam produzindo uma média menor que 10 litros dia. Ele pregou na parede de casa uma planilha com os nomes e a litragem de cada animal, para que meu pai pudesse fazer um controle diário da produção. Sem muita intimidade com os números, ficou comigo a incumbência de fazer as anotações. ''Vamos lá garoto, vamos anotar certinho isto aí'', brincava Gabriel, que ao longo do tempo se tornou parte da família.
Com as instruções técnicas dele, meu pai percebeu onde estavam seus erros com ''as mimosas''. Viu como era importante que os animais se alimentassem bem e que investir nisso era primordial. A média de leite, em poucos meses, saltou de 10 para 22 litros por vaca. O Natal daquele ano foi mais feliz em casa. Meu pai estava radiante, e eu, pela primeira vez, ganhei um brinquedo do armarinho do seu Osvaldo no dia 25 de dezembro.
Foi naquele ano também que decidi que profissão queria seguir no futuro. Me formei em zootecnia e me especializei no trabalho de assistência técnica voltado a agricultores familiares, para auxiliar pessoas como meu pai. Dona Arlete, até hoje, associa minha profissão ao trabalho de um anjo, que, como Gabriel, chegou até nós através do ''chamado de Deus''. Desde aquele dia, a figueira nunca mais deixou de florescer em nosso lar e minha mãe, com todo sua fé, nunca deixou de se alegrar no Senhor.
Victor Lopes é jornalista na FOLHA

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