Coisa que não sai da memória é casa de mãe, no sábado à tarde, cheirando a bolo saindo do forno e a compotas de frutas caipiras. Nada de massas de caixinha, nada de geleias industrializadas. Bom mesmo era acompanhar cada etapa da preparação e de sentir o aroma da delícia ficando pronta. Vez por outra, éramos chamados a untar as assadeiras, bater os ovos, mexer o doce para não grudar. Como prêmio, ganhávamos o direito de disputar no final a glória máxima de raspar a panela.
Havia fartura de matéria-prima e de criatividade. Minha mãe, durante a semana uma operária do sistema bancário, ficava de olho no que estava sobrando para inventar os cardápios. A nata retirada após as fervuras do leite (saído diretamente do sítio para nossa mesa) se transformava em pãezinhos de minuto, uma iguaria feita por ela no puro 'olhômetro'; as goiabas que seriam perdidas no quintal dos meus avós eram cuidadosamente descascadas e divididas entre polpa e miolo, para os diferentes doces; as sobras de leite viravam ambrosia, arroz doce, manjar ou simplesmente um mingau quentinho nas noites de frio. Uma gastronomia simples, saborosa e saudável.
Pena que demoramos a aprender o valor destes costumes. A geleia bem apurada, que 'casava' com o queijo branco e com o pão caseiro, às vezes ficava esquecida dentro do vidro (hoje, só de lembrar, a boca se enche de água). E aqueles famosos pãezinhos - que chamavam 'de minuto' porque assavam rapidinho, e que na época chegávamos a desdenhar - nunca mais encontrei sequer algo semelhante nas melhores confeitarias. Sem falar da cocada feita com os frutos tirados do coqueiro ao lado de nossa janela; da bananada de consistência única, feita para não perder a penca colhida no quintal; do licor feito com as jaboticabas que sobravam depois de nossas investidas no jardim transformado em pomar.
Aquele era um tempo em que cozinhar significava muito mais que colocar enlatados e temperos prontos na panela. Não por acaso, nossas refeições tinham outro sabor. Investia-se horas preciosas em cuidar da família por meio de bons alimentos. Mais do que isso, pais e filhos se envolviam na sagrada tarefa de produzi-los. Se o ponto da sobremesa demorava a chegar e os braços da mãe já não suportavam os movimentos repetitivos depois de um dia de trabalho, o pai ou um dos filhos entrava em cena para dividir o esforço e multiplicar a cumplicidade.
Muito de nossa vida girava em torno da cozinha e era nela que também resolvíamos conflitos. Cada refeição tinha sua própria história, e a partir dela construíamos também a nossa, para sempre marcada com sabores únicos e aromas inesquecíveis.
Silvana Leão é jornalista na FOLHA

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