DEDO DE PROSA - Retratos do sítio
Na parede rústica e judiada pelo tempo, os retratos contavam a jornada de nossa família naquela terra. As molduras antigas e de grande apreço se espalhavam pela sala, formando nossa árvore genealógica improvisada. As primeiras fotos, de nossos antepassados, eram pinturas bem próximas à realidade. O artista ''de passada'' pelo sítio reproduzia os casais na tela, eternizando-os nos rincões do mundo.
Desde criança, tentava desvandar a história de cada um daqueles quadros. Olhava aquelas pessoas estranhas que, de certa forma, ainda viviam na minha casa. Decifrar suas jornadas era minha principal diversão durante as tardes de inverno, quando o vento congelante me impedia das brincadeiras ao ar livre.
Bisavô e bisavó, tios e tias, todos tinham direito a um espaço naquela parede. Mas havia uma pessoa ali que atiçava minha imaginação a ponto de me incomodar. Ao lado de um homem rústico, com barbas longas e rosto intenso, lá estava ela, escondida num retrato menor, no canto da sala. Meio ruiva meio loira, pela clara castigada pelo sol, e um olhar incompreensível. Sorriso pouco - quase falso - a jovem mulher parecia não estar feliz.
Ela passa por um dia ruim? Seus filhos estavam dando mais trabalho que o esperado? A vida no sítio lhe cansava? As possibilidades eram infinitas. Ela estava lá, eternizada por uma foto, que me fazia julgá-la e decretar seu destino, pelo menos em minha mente.
Depois de muito olhar e imaginar, resolvi enfim, perguntar à minha mãe sobre aquela mulher. No início ela tentou me despistar, dizendo que se tratava de uma amiga distante, mas minha insistência a venceu. Seu nome era Jaqueline e havia se mudado para nossas terras ainda na infância de minha mãe.
Não era da família, tão pouco nasceu ali por perto. Jaqueline havia se mudado para as bandas do sítio para se casar. O pretendente, um tio de meu pai - homem rude e mais velho do que ela - conseguiu arranjar o casamento numa negociata com a família da moça. Por anos ela esteve presente naquela casa, enfrentou o trabalho árduo em nossas terras e aprendeu a viver onde não desejava estar.
Quando minha mãe ficou mais velha, ganhou a cumplicidade de Jaqueline. Descobriu que ela teve um intenso amor, que foi interrompido pela mudança forçada para o nosso sítio. Numa manhã escura, mostrou para minha mãe uma foto do rapaz que se apaixonara poucos antes de ter a vida interrompida. Mamãe incentivo-a a ir atrás do moço, mas Jaqueline disse que ele havia partido para a cidade grande quando soube do seu casamento e que o tempo ''já havia passado para ela''.
Depois de anos, Jaqueline se mudou para outro sítio com o tio de meu pai. O retrato na parede é fragmento de uma vida que ela nunca desejou. A foto do grande amor ficou aprisionada para sempre, escondida, sem nunca merecer um espaço naquela sala.
Victor Lopes é jornalista da FOLHA





