DEDO DE PROSA - Primeiro dia de aula
As pernas finas bambeavam para lá e para cá toda vez que me lembrava daquele compromisso, com dia e hora marcados. O material - um lápis preto, meia dúzia de lápis coloridos, borracha branca, régua, um pequeno caderno brochura com 50 páginas que trazia estampado na capa um patinho amarelo em um lago e um espaço para escrever o nome e uma lancheira do Super-Homem - todo arrumadinho e guardado em um canto de destaque da velha estante da sala aumentava minha ansiedade. Sensação muito compreensível para um menino de seis anos que iria frequentar a escola da vila, como aluno, pela primeira vez.
Dias antes da aula inaugural, minha mãe me levou até a cidade para comprar uma camisa branca e um par de congas, os sapatos mais baratos da época. Aí a situação piorou de vez. Já nem conseguia mais dormir direito. Pegar no sono era difícil. Sonhava a noite toda... Como seria minha primeira professora? Onde iria me sentar? Aprenderia fácil as lições?
Finalmente chegou o dia. Lembro que acordei ainda de noite, antes que todos em casa. As mãos tremiam. Com muito custo, minha mãe acordou e preparou o café. Estava tão nervoso que não consegui colocar nada no estômago. Rapidinho me aprontei, coloquei os materiais embaixo do braço e parti, tenso, aguarrado à minha mãe.
Como a escola era bem perto, ela me deixou no portão e foi embora. Meio perdido, achei a sala da 1 série e fiquei por perto, esperando meus colegas de classe e a professora. Todos em fila e lá veio ela. Jaleco branco, saia até abaixo do joelho, cabelos pretos e presos atrás da cabeça. Seu nome: Marina. Assim como minha mãe. Iria começar meu primeiro dia de aula.
Mal sabia empunhar o lápis e os primeiros momentos foram de descontração, com aquelas perguntas básicas: nome completo, nome do pai e da mãe, o que mais gostava de fazer, etc. As carteiras eram feitas de forma a comportar duplas de alunos. Dei muita sorte, pensei, pois iria dividir aquele espaço com meu vizinho de sítio.
Passado o nervosismo, fui sentindo que o ambiente era bastante atraente. Rapidamente, consegui concluir os primeiros exercícios - tracinhos horizontais e verticais e cobrinhas até preencher toda a folha - e fui gostando daquilo. Nos dias seguintes, nem percebia o tempo passar. Tudo era novidade e cada letra desenhada no papel era uma conquista grandiosa.
O tempo passava cada vez mais depressa e quando vi já sabia ler e escrever. Neste dia, senti pela primeira vez o que tudo aquilo significava: um mundo novo sempre se abre quando aprendemos alguma coisa, ainda que seja um simples rabisco em uma folha de caderno.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





