Quando se é criança, algumas experiências são tão surpreendentes que nos tiram o fôlego. No sítio, minhas primeiras cavalgadas solitárias davam um friozinho na barriga que me acompanha até hoje. Aprender a nadar também foi desafiante. Meu tio juntava toda a molecada numa margem nem rasa nem funda do ribeirão que passava nos fundos da propriedade e lançava um a um os moleques na água. Na marra, a gente acabava dando as primeiras braçadas. E seguia assim até que o rio já não causasse mais medo.
A 30 anos atrás, até a bicicleta era artigo de luxo para quem morava na roça. Poucas eram as magrelas que circulavam pelas precárias estradinhas rurais e trilhos abertos em meio aos pastos e plantações. Por isso, recordo com carinho de minhas tentativas para conseguir parar em pé, pedalar e ainda seguir pelo caminho correto sobre duas rodas.
A novidade chegou em casa quando meu irmão mais velho ganhou uma antiga Monark dobrável vermelha de um tio. A bicicletinha, coitada, já estava bem castigada pelo tempo. Os pneus quase não tinham mais borracha e os aros eram mais ovais do que redondos. Apenas o freio traseiro ainda prestava para alguma coisa. Despencar morro abaixo era quase suicídio porque parar rapidamente era um milagre. O selim estava todo remendado e o guidom, torto, pendia sempre mais para um lado do que para o outro.
Minha mãe não gostou nem um pouco do presente. Ela achava que a bicicleta corria mais que os cavalos e, por isso, representava perigo. Demorou até que ela se aquietasse.
Meu irmão tratou logo de tomar posse do presente e aprendeu até algumas manobras. Eu me arriscava meio com medo e foi bem difícil manter o equilíbrio em cima daquela máquina feita de ferro. Levei muitos tombos, quebrei o dedão do pé esquerdo, ralei os joelhos, topei com cercas e barrancos... Levei muitos tombos, quebrei o dedão do pé esquerdo, ralei os joelhos, topei com cercas e barrancos. Mas, decidido, um dia garanti que ou aprendia ou desistia. Me ajeitei sobre o banco, respirei fundo e pedalei com toda a força. Percorri uns trezentos metros até parar sem cair.
Pronto: tinha aprendido a andar de bicicleta. Depois disso, voltei a preferir o cavalo e a magrela ficou lá, enferrujando num canto do sítio.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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