DEDO DE PROSA - Primavera poética
Ontem, 23 de setembro, teve início mais uma primavera. Recordo que o primeiro poema que aprendi na vida tinha a ver com este período do ano. Mal sabia pegar no lápis e a leitura ainda saía meio capenga. Achava difícil juntar as letrinhas e cada palavra lida era uma batalha vencida. Mas a leveza das palavras de Cecília Meireles me fez guardar na memória até o tom de voz que a professora usou para nos apresentar ''Leilão de Jardim'', da poetisa.
O universo da obra nos era muito familiar, pois abordava um universo comum aos que viviam na roça. ''Quem me compra um jardim com flores? Borboletas de muitas cores, lavadeiras e passarinhos, ovos verdes e azuis nos ninhos?'', questionava a autora. Lembro que a sutileza de Cecília provocou grande discussão em sala. ''Se o passarinho vive solto, como alguém pode comprar o ovo dele?'', perguntou um dos alunos.
E a escritora prosseguia. ''Quem me compra este caracol? Quem me compra um raio de sol? Um lagarto entre o muro e a hera, uma estátua da Primavera?'' Como Cecília foi tinhosa. ''Professora, lá em casa vive um monte de caracol... mas meu pai não vende'', garantiu Aninha, cheia de confiança.
Cecília foi ainda mais adiante. ''Quem me compra este formigueiro? E este sapo, que é jardineiro? E a cigarra e a sua canção? E o grilinho dentro do chão?''
Foi difícil conter o ímpeto da criançada. Todos ficamos irritados com a situação, porque no sítio não funcionava do jeito que estava no poema. Sapo não tinha preço. Do formigueiro, a gente mantinha distância para não ser picado. A cigarra era nossa companheira. Cantava com força até explodir e trocar de casca. A gente até achava o canto meio estridente, mas era só isso.
Na roça, as coisas da natureza eram gratuitas. Não se vendia nem se comprava passarinho, caracol, lagarto ou raio de sol. A primavera era sempre um período de alegria. As árvores que perdiam as folhas no inverno ganhavam vida nova quando setembro chegava. Parece que os dias ficavam muito mais claros. Até o sol, lindo como só, surgia a cada dia ainda mais bonito e brilhante. A fartura de flores - ipês de todas as cores, primaveras, hortências, margaridas - inebriava os insetos e enchia de cor nossos dias. Os bichos todos davam as caras, interessados que estavam em receber a nova estação.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA DE LONDRINA





