Mais da metade da minha vida eu caminhei por essas serras. Comecei morando na Roncador, Bonita, da Prata e finalmente fiz meu ninho na serra com o nome de uma árvore significativa desde a minha infância : Serra do Jatobá.

Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA - Pelas serras do Jardim Bandeirantes
| Foto: iStock

É bom morar por essas serras. Lugar de simplicidade, de gente conhecida, de muitas histórias. Essas histórias eu relembro ao percorrer as serras, ou melhor, as ruas com os nomes de serras; cada rua que percorro e cada casa que olho, vejo desfilando pessoas, seus filhos, seus netos...umas já não se encontram mais aqui, outras estão velhinhas e transbordando história, sedentas de contar como era quando chegaram.

Lembram os cafezais, as árvores, o barro das ruas sem asfalto e sem nome, as primeiras construções, as escolas, onde muitos se orgulham ter estudado, e as igrejas, em torno das quais o povo de Deus caminhava e fazia missão, celebrava seus cultos, suas missas, quermesses, recebia o batismo, a primeira comunhão, casavam-se... o importante era viver a fé e testemunhá-la, deixar um legado para os filhos e fundamentar a família com valores importantes. Ainda hoje temos no bairro muitas igrejas, de diversas denominações.

As casas do comércio, claro, evoluíram, renovaram-se, passaram de pais para filhos, trocaram de dono ou simplesmente... fecharam. Novas empresas foram surgindo, como o supermercado Big Dog, uma história de trabalho e evolução, hoje, o ponto de encontro das donas de casa, que ali ficam mais tempo que o necessário, pondo a conversa em dia. Ou os dois grandes bazares que resistiram ao tempo e continuam oferecendo de tudo um pouco. São do “povo” e Trevo da Sorte, competindo com os do centro.

Muitas casas foram reformadas mas ainda se pode ver, aqui e ali, aquelas de madeira, antigas, modelos “americanos”, com uma pequena varanda; bem conservadas ou caindo aos pedaços como se fosse um descuido causado pelo tempo ou pelo dinheiro curto.

As praças ainda existem, tem feiras e feirinhas, mas com outra cara. Derrubadas as árvores antigas, no lugar surgiram quadras esportivas, academias ao ar livre que o povo apelidou preconceituosamente de “estica-velhos “, parquinhos infantis, tudo modernamente chamado de área de lazer que a população recebe, a conta-gotas, para promover esse ou aquele político. Como se não fosse uma obrigação deles e um direito nosso.

Mas, sem perder o romantismo, mesmo a história sendo história, quantas lembranças caminham pelas casas dessas serras. Impossível não se emocionar ao olhar para o passado, recordar as pessoas que aqui viveram e também as que vivem. São muitas histórias diferentes, mas todas de lutas, de alegria, de trabalho, de dores também. De vez em quando alguém vai embora para outros lugares ( melhores) ou para sempre.

As avenidas ainda levam o nome da esperança e vão produzindo ameixas amarelas por onde passa ou então corta todo o bairro, com o nome de um grande pioneiro que veio de longe para aqui plantar uma Companhia de Terras, além da rua principal ter o nome de Graciosa. Aqui é um bairro bom, cheio de gente amiga que ainda lembra os tempos antigos, que se cumprimenta nas ruas, todo mundo conhece todo mundo...

É por isso que, quem um dia andou por essas serras, sempre acha um motivo para voltar, para encontrar alguém, para visitar ou simplesmente para matar a saudade...

Estela Maria Ferreira, leitora da FOLHA

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