DEDO DE PROSA - O velho Jordão
Quando era criança, um medo me apavorava como nenhum outro. Não era medo de ladrão ou assaltante, porque naquele tempo ainda não existiam estas coisas no sítio. Nem mesmo na cidade, onde, por ausência quase completa de diligências, o Fusca branco e preto da Polícia ficava praticamente o dia todo estacionado em frente ao prédio da Delegacia. Também não era medo de assombração ou dos monstros que viviam sob o colchão. Modestamente, ainda era um menino mas já tinha superado esta fase. Tampouco tinha medo dos bichos. Estes eram todos amigos.
O medo que mais me apavorava naquela época era o medo de um velho conhecido na redondeza como Seo Jordão. Nos dias atuais, ele poderia até ser confundido com um talibã. Tinha os olhos apertados e vermelhos. Matinha uma barba sempre comprida e desgrenhada, que escondia o formato do rosto. Dentes tinha um ou dois pela metade.
Na cabeça, trazia um trapo amarrado e por cima um chapéu velho sem abas. Estivesse frio ou calor, vestia um surrado paletó amarelado e sujo. Por baixo, uma camisa em piores condições ainda. A calça era de tecido e larga e tão maltrapilha quanto a parte de cima. Os pés ora estavam descalços, ora calçavam sapatos rotos ou chinelas remendadas com arames.
Nas costas, levava um saco cheio de alguma coisa que nunca ninguém descobriu o que era. Minha mãe dizia que eram crianças malcriadas, que desobedeciam os pais. E meu medo aumentava mais quando ela dizia estas coisas.
Seo Jordão não tinha morada fixa. Como andarilho, perambulava de um canto a outro pela região. Vagava sem rumo pelos mesmos destinos e parava em alguma casa, sítio ou armazém quando sentia fome. Tinha um mal humor dos infernos.
Certo dia - me recordo que era inverno -, estava em casa quando ouvi o barulho da porteira rangendo. Pensei que era meu tio, que diariamente passava em casa para tomar um café. Saí na porta e vi um homem de costas, sentado no alpendre. Olhava para o pasto sem falar nada. Continuei pensando que era meu tio. Me aproximei pé ante pé, sem que ele notasse. Minha intenção era surpreendê-lo e, quem sabe, derrubá-lo da cadeira e depois dar muita risada. Bem perto, dei um salto e pulei sobre ele, abraçando-o pelo pescoço.
Acabei surpreendido. Em todos os sentidos. O homem era o velho Jordão. Em vez de reclamar, ele tomou minha mão, virou um pouco a cabeça e me ofereceu o pedaço de pão velho e duro que roía com os tocos de dentes. Queria compartilhar o quase nada que tinha.
É claro que o medo que sentia do Seo Jordão não sumiu de uma hora para outra. Mas daquele dia em diante, passei a entendê-lo com mais humanidade.
Luciano Augusto, jornalista da Folha de Londrina





