Um dia acordei de madrugada no sítio, assustado com um barulho que vinha do quintal. Era um piado comprido, compassado, alto e mais para o grave do que para o agudo. Tão incomum que se destacou até dos roncos de meu irmão mais velho.
Eu, confesso, nunca tinha ouvido som semelhante. Me lembro que era pequeno e ainda não conhecia todos os segredos escondidos na penumbra das noites no sítio. Mesmo assim, tomei coragem. Devagarinho, me livrei do cobertor e descalço contei sete passos até a janela do quarto. Silenciosamente e bem devagar fui abrindo uma fresta mínima numa das folhas de madeira.
Do lado de fora, a escuridão cobria tudo. Mas no contraluz produzido pela nesga de lua que brilhava no céu ví a sombra de um pequeno animal que parecia imóvel sobre um dos mourões que cercava o quintal. Não dava para perceber se tinha pena, se tinha bico, se estava de cócoras ou em pé.
O medo acelerava meu coração mas, ainda assim, decidi não desistir. Sem que ninguém de casa percebesse, subi no parapeito da janela e saltei do outro lado. Caminhei um pouco molhando os pés no orvalho do gramado até um ponto em que pudesse me posicionar melhor para observar aquele bicho estranho. Agora, já podia usar o luar para melhor iluminar o animal desconhecido.
Aos poucos, fui percebendo que aquele ser era, na verdade, um pássaro. Tinha penas com tons que variam entre o cinza e o marrom. O bico, pontiagudo e curto, se unia harmoniosamente com o par de olhos arregalados e muito bem centralizados. As garras fortes completavam o conjunto. Logo percebi que ao contrário de outras aves, aquela girava a cabeça até quase completar uma volta completa. Sem qualquer esforço ou dificuldade. Parecia um truque, magia ou coisa de outro mundo.
Depois disso, decidi voltar ao quarto porque o frio do outono já apertava. Mas só no dia seguinte fui descobrir o nome daquela ave sobre a qual nada conhecia. Antes mesmo do café, contei a meu pai sobre o que havia acontecido durante a madrugada e só então descobri. O bicho, na verdade, era uma coruja. E não havia mágica nenhuma em seus movimentos de cabeça. Meu pai explicou que estas aves são das raras que conseguem girar tanto o pescoço e que isso era uma maneira dela se proteger de outros animais e também encontrar comida. Pronto, o segredo da coruja estava desfeito.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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