DEDO DE PROSA - O retrato do papa
Nascido numa família católica, fui batizado, fiz primeira comunhão, passei pela crisma, participei de grupos de jovens quando adolescente e das celebrações que aconteciam na igrejinha da vila onde ficava nosso sítio. Cresci num ambiente onde a religiosidade sempre esteve muito presente em minha vida. E neste contexto, a figura do papa pairava sobre nós como um exemplo a ser seguido. Como um pastor que orienta todas as suas ovelhas.
Eu cresci, não vivo mais naquele sítio da minha infância e, confesso, minha relação com o catolicismo neste tempo teve altos e baixos. Ora me aproximo, ora me distancio. Não que tenha colocado de lado tudo aquilo que aprendi quando criança e que me fez uma pessoa melhor. Também acredito que minha formação católica jamais vai deixar de existir em mim. Mas, na minha cabeça, penso hoje que as circunstâncias da vida me proporcionaram também outras experiências, tão ricas quanto àquelas que vivi quando criança.
Lembrei disso tudo por conta do episódio envolvendo a renúncia do papa Bento XVI, que me fez reviver algumas passagens do passado no sítio. Recordei, por exemplo, que em todas as casas dos católicos da vila havia um retrato do papa. Na sala da vovó, a figura do papa Paulo VI morto em agosto de 1978 ocupava lugar de destaque.
Me recordo dele como um homem de semblante sério, mas ao mesmo tempo cordial. Na foto clássica, ele aparecia sentado numa espécie de trono encarando a câmera, como se olhasse para cada ovelha de seu rebanho. Os dedos da mão direita foram estrategicamente registrados em posição de benção. Quase todas as semanas, minha avó acendia uma vela numa mesinha próxima ao retrato, que queimava até que a chama se extinguisse.
Já em casa, o retrato que ficava na sala era o do papa João Paulo II, que liderou os católicos de 1978 até abril 2005. Ele vestia uma capa vermelha sobre um traje branco e tinha o olhar mirando o horizonte. O fundo azul conferia-lhe um ar de esperança. Quando fez sua primeira visita ao Brasil, em 1980, passamos horas com o ouvido colado no rádio e com os olhos num velho televisor preto e branco refletindo sobre as suas pregações.
Para mim, criança ainda, o papa era um santo que vivia na Terra. Hoje ainda acho que não estava errado, mas a renúncia de Bento XVI me fez perceber que tanto os papas quanto nós, suas ovelhas, somos todos humanos. E como tal, temos nossas grandezas e fraquezas.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





