Era numa velha caixa de sapatos, que ficava guardada em cima do guarda-roupas, que minha mãe deixava desmontado o presépio de Natal lá em casa. Quando ia terminando novembro, ela subia numa cadeira, pegava a caixinha e reunia todo mundo na sala. Era o dia de montar o presépio natalino.
Lá no sítio não havia luxo nenhum. Ela sempre usava uma toalhinha branca de renda para forrar a mesinha. Enquanto isso, a gente saía pelo mato atrás de um galho seco que pudesse ser usada como nossa árvore. Em casa, minha mãe enchia uma latinha com terra ou areia e decorava com papel de pão amassado para esconder o metal.
Delicadamente, ela ia pegando pequenos chumaços de algodão e repassava para cada um colocar num galho seco. Era a nossa neve tropical. Uma estrela pintada de dourado era colocada no galho mais alto. Para dar alegria, a gente recortava e amarrava pedaços de fitas de cetim coloridas. Montada a árvore, a próxima etapa era preparar o presépio. De dentro da caixinha de sapatos, minha mãe retirava os antigos e poucos personagens e enfeites. Todos comprados em Aparecida do Norte e benzidos na grande catedral de Nossa Senhora Aparecida. Nossa crença era de que o presépio ficava mais santo desta maneira.
As peças se resumiam a um pequeno menino Jesus de plástico, o carpinteiro José, Maria, os três reis magos, uma ovelha e duas vaquinhas simpáticas. Para concluir o trabalho, minha mãe acendia uma vela e todos rezavam uma oração simples. E depois de concluído o trabalho, não se mexia mais no presépio. Minha mãe se encarregava de manter limpa e sem pó a mesinha, enquanto a gente podia, no máximo, parar para observar nossa criação.
Como vejo hoje, nosso Natal não tinha pinheirinho, nem lâmpadas ou bolinhas coloridas, caixas de presente ou qualquer outro adereço mais bem acabado. O que nos agradava e nos unia era o ritual de montar o presépio e o que tudo aquilo representava para uma família católica como a nossa.
Também não se fazia nenhum pedido especial para a noite de Natal, mesmo inconsciente. Primeiro, porque no sítio a gente nunca teve essa coisa de pedir presente. Ganhávamos o que era possível, e preciso. Uma roupa, um calçado, par de meia, cueca, eventualmente uma bola... Eram estes os presentes natalinos e nem por isso ficávamos tristes ou desapontados. E segundo, porque o que a gente esperava mesmo era a ceia de Natal, mas esta história fica para uma outra ocasião.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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