O ano começou cheio de preocupações extras e muito trabalho. Mas em meio ao turbilhão que me envolveu assim que pus o pé na cidade, depois de uns dias curtindo a casa de mãe, fui salva pelo inesperado. Em um final de tarde de janeiro, chuvoso e de temperatura baixa para a época, me deparei com uma caixa de papelão abandonada. Dela saíam miados desesperados, que me capturaram.
Depois de adulta, nunca mais havia tido bichos em casa. A correria de sempre e a vida dentro de apartamento sempre me fez resistir, mesmo quando as crianças insistiam na ideia. Naquela tarde do início de janeiro, porém, um par de pequenos olhos redondos e azuis me convenceram. Sem pensar muito, o levei para casa, pensando em nossa caçula, prestes a fazer aniversário. A aventura do ano, porém, estava só começando: pouco tempo depois, lá estava o filho mais velho chegando com a caixa de onde se viam os outros oito olhinhos assustados, com o argumento irrefutável de que se não os trouxesse, morreriam de fome e frio.
Tentei puxar pela memória: o que fazíamos, na infância, para cuidar de filhotes retirados tão precocemente do aconchego da mãe? Não me lembrei de nenhuma experiência semelhante, até porque em nossa casa sempre tivemos apenas cachorros. O bom-senso, porém, me fez imaginar que o leite que alimenta bezerros, medidos em arroba, não devia servir para aqueles seres minúsculos, de 200 e poucos gramas. Passado o desespero inicial, resolvi recorrer a quem entende do assunto, e pude, também eu, sentir o gosto bom da solidariedade. Em poucos minutos uma amiga chegou com ração especial, caixinha de areia, colo, conselhos e o auxílio luxuoso da irmã veterinária.
Por mais de duas semanas, ''perdemos'' algumas horas e exercitamos nossa paciência cuidando dos gatinhos. Dos cinco irmãos, dois ainda estão em casa. Tudo indica que ficarão por ali, colocando graça na nossa rotina. Nunca gostei dos excessos cometidos com animais de estimação, mas hoje entendo melhor a sintonia que muitos deles mantêm com seus donos. Além das refeições da família e da saúde dos filhos, inclui em minha lista de preocupações a compra de ração, as idas ao veterinário, a instalação de redes de proteção nas janelas. Mas percebi que a vida está mais leve.
Ajudando aquela ninhada a sobreviver, talvez eu também tenha sido ajudada em meus medos e preocupações. Se me perguntassem, até algumas semanas atrás, se gosto de bichos, daria uma resposta morna e sem empolgação. Hoje me pego contando em rodas de amigos as proezas dos filhotes da casa. Decididamente, descobri que gosto sim de gatos, acima de tudo dos que ainda estão descobrindo o mundo.

Silvana Leão é jornalista na FOLHA

mockup