Imagem ilustrativa da imagem DEDO DE PROSA - O pé de louro
| Foto: Marco Jacobsen

Tenho bons motivos para revisitar as gavetas da memória, buscando cenas e passagens da minha infância, porque foram anos de aprendizado e felicidade. Certa vez, quando eu tinha 11 ou 12 anos, meus tios José Paulo e Jeni vieram da capital nos visitar, chegando numa manhã de domingo na pequena cidade onde morávamos. Eram casados há pouco tempo e viajaram num fusca 1970, recém tirado da fábrica, como nos disseram. José Paulo fora criado em cidade grande, era estudioso e havia se formado em Economia, ocupando um importante cargo na Secretaria da Fazenda do Estado. Mesmo com vasto currículo, não era arrogante ou vaidoso.

Não sei como avisaram que chegariam, mas meus pais estavam esperando pelos parentes, pois a casa estava arrumada e tinham sido comprados alguns itens de alimentação, algo raro em nosso dia a dia. Recebidas as visitas, a tia foi com minhas irmãs à sala para contar as novidades da capital, enquanto eu e meus irmãos ficamos na cozinha, ao redor do fogão à lenha, ouvindo com muita atenção a conversa do tio.

Meu pai, um homem simples, apenas escutava, assentindo com a cabeça a cada afirmação do visitante, que nos envolvia com sua eloqüência, tentando nos fazer entender palavras que não conhecíamos: tributos, imposto de renda, alíquotas, obrigações fiscais. Eu, quieto num canto, ficava imaginando como deveria ser interessante cursar uma faculdade e que, se um dia soubesse metade de todas aquelas coisas, certamente também poderia comprar um fusca, mesmo que fosse de segunda mão.

De repente nossa irmã caçula Cacau deixou a sala e juntou-se a nós, atraída pela fala do hóspede que contava as peripécias da viagem, detalhando os acontecimentos e aventuras que haviam enfrentado. Seu discurso era minucioso, nos levando a imaginar cada curva da estrada, rios, morros e planícies do trajeto. A Cacau nem piscava ao ouvir o relato, mostrando desde criança seu gosto em conhecer lugares exóticos, estudar geografia e viajar pelo mundo.

Enquanto isso, minha mãe fazia os preparativos do almoço manuseando utensílios e panelas. Sentindo o cheiro do preparo da comida, sabíamos que aquele almoço seria especial. Aos domingos nosso cardápio era frango com polenta ou risoto de frango. Nunca os dois juntos. Naquele dia, porém, teria frango com polenta e também risoto. Em certo momento minha mãe pediu licença, interrompendo a conversa, dizendo para eu pegar umas folhas de louro, para usar como tempero. Fui à horta e voltei correndo para não perder o assunto. O tio fez uma longa pausa e passou a observar com atenção a colocação das folhas de louro nas panelas de cozimento. Na hora do almoço o tema da conversa foi o sabor da comida feita pela minha mãe.

- É por causa do louro, respondeu ela, agradecendo ao elogio do convidado.

Depois da sobremesa, ele me chamou para irmos até a horta pedindo que eu lhe mostrasse os canteiros de verduras, legumes e especiarias, abundantes em nosso quintal. Ele conhecia verduras e legumes, mas sabia pouco de especiarias. Durante quase uma hora fiquei nominando cada pé de planta: alecrim, sálvia, coentro, manjericão, alho-poró, orégano, mostarda e outras. Não satisfeito, ele continuou a observar os canteiros e falou que estava procurando a planta que minha mãe usara como tempero. Eu respondi apontando para uma árvore alguns metros atrás dele, sem deixar de notar seu susto ao ver o tamanho do pé de louro. Em seguida me deu um abraço, dizendo que tinha aprendido que as folhas de louro eram retiradas de uma árvore.

Na semana seguinte à partida das visitas, na aula de redação, a professora pediu que fizéssemos uma frase sobre o conhecimento e eu, lembrando do tio, escrevi: com esforço e dedicação podemos adquirir muito conhecimento, mas a grande sabedoria é reconhecer que nunca sabemos tudo.

Gerson Antonio Melatti, leitor da FOLHA.

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