O poeta gaúcho Mário Quintana, especialista em alma, já decretou: ''Quem disse que eu me mudei? Não importa que a tenham demolido: a gente continua morando na velha casa em que nasceu.'' E todo mundo é mesmo um pouco assim. Não crê?
Somos sempre fruto daquilo que fomos um dia. No meu caso, a poeira que cobria meus pés na estrada de chão continua impregnada entre meus dedos. A terra que tingia minha pele nunca desbota. Eu continuo sendo aquele menino do sítio que seguia os pais nas roças de milho, alho, arroz. O mesmo moleque franzino de canelas finas que corria por entre as ruas de cafés. Que passava os fins de tarde jogando bola com os garotos da vila até o sol se esconder atrás do morro.
As mudanças físicas e espaciais aconteceram também comigo. Virei jovem, saí de casa, fui estudar, depois trabalhar. A cada mudança, aumentam os quilômetros de distância do sítio da minha infância. Morei em muitas casas. Fiz muitos outros amigos. Passei por milhares de outras experiências. Chorei e sorri.
Mas não tiraram de mim a alma de menino do sítio. Dorme em meu coração o sossego das noites e o céu estrelado que espiava pelo vão da janela de madeira do meu quarto. Quando chove fininho, é como se repetisse no meu olfato o cheiro da água molhando a grama devagar.
O meu lugar ainda é aquele que aprendi a gostar. É o colo de minha mãe. O carinho de meu avô. É o banco da escola. A vela de lamparina. A cerca de bambu. O cachorro Saci. As abobrinhas que cresciam graúdas na horta. O bolo de mandioca e o milho assado na brasa do fogão a lenha. O rio que cortava a vila em duas. As idas ao mercado. A friagem do inverno que inchava minhas amígdalas e causava febres altíssimas. O medo de injeção. O primeiro metro percorrido de bicicleta.
O poeta, portanto, está certo. As coisas mudam. O sítio já nem existe mais tal e qual eu o conheci um dia. As ruas ganharam asfalto. A lamparina virou peça de museu. O bolo de mandioca agora se compra no supermercado. O tempo passa sim e o velho é demolido para dar lugar ao novo. Mas a gente continua sempre morando na casa onde nasceu.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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