No sítio não havia shopping, loja de departamento, ''outlet''. Também não havia queima de estoque, saldão de balanço, promoção relâmpago. Não tinha cartão de crédito, débito, nem crediário facilitado. E a gente precisava vestir e calçar. As soluções eram bem poucas. Ou se ''viajava'' até a cidade e fazia as compras na loja de armarinhos, que vendia de tudo. Ou, como a maioria das famílias, se recorria mesmo ao bom e velho mascate: um comerciante de porta em porta, que passava a cada mês e meio ou dois meses com seu Fiat 147 abarrotado de tudo quanto é tipo de mercadoria.
O mascate Darci, como era conhecido, vendia de fralda a fazendas de tecidos, de meia a cortina para sala. De botina a pano de prato. As estradas de terra da região castigavam o velho Fiat. O barulho do escapamento era seu marketing de vendas. As crianças logo corriam para abrir as porteiras e autorizar o acesso à propriedade. Ele estacionava no quintal e ia expondo as mercadorias sobre o capô e o teto do carro. Parecia impossível caber tanta coisa naquele pequeno automóvel.
Do porta-luvas sacava sua cadernetinha, onde anotava numa letra pequenininha as contas feitas na última passagem. Nunca cobrava juros, nem preenchia promissória ou outras garantias. Bastava a palavra do freguês. E quando a cliente reclamava que estava ''desprevenida'', ele dividia a dívida ou aceitava alguma outra coisa como pagamento, como uma sacola de milho verde, café torrado, bolacha caseira ou algo semelhante.
Tinha uma voz mansa e amistosa e uma educação que lhe conferia nobreza. Primeiro negociava as mercadorias novas para só depois fazer as contas do saldo devedor do freguês. Concluída a negociação, ele se punha a organizar detalhadamente no velho Fiat 147 cada par de meia que havia colocado em exposição. Vez ou outra, aceitava um cafezinho em sinal de cordialidade e apreço.
Por essas e outras é que lá em casa o mascate Darci era o modista da família inteira. De mim - o caçula - até meu avô - o patriarca -, todos calçavam e vestiam as roupas compradas do mascate.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA

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