DEDO DE PROSA - O maravilhoso mundo sem eletrodomésticos
Para quem quer pão na chapa tem o grill. Para esquentar a janta, o forno de microondas dá aquela força. Vai fazer um bolo? A batedeira faz o serviço pesado. Para o suco de abacaxi, o liquidificador tritura a fruta. Se precisar esticar a camisa, o ferro a vapor tem a solução. Para guardar a caixinha aberta de leite, a geladeira acaba com o problema. Para um banho quente basta ligar o chuveiro elétrico.
É difícil pensar a existência cotidiana sem esses eletrodomésticos e tantos outros que nem caberiam neste espaço. Mas é estranho pensar que há pouco mais de duas décadas, eles não tinham lugar na maioria das famílias que não habitavam nas cidades. A própria energia elétrica era um benefício que atingia parcela pequena dos moradores da zona rural.
No sítio, a luz só chegou quando eu já era grande. De pequeno, a gente tomava banho de bacia com água esquentada no fogão a lenha. No verão era até gostoso, porque aí nem precisava de água quente. Mas no inverno era preciso ser ligeiro para não passar frio. Depois era só se enrolar na toalha e vestir um agasalho bem quentinho.
Os bolos da vovó e de minha mãe eram batidos à mão. Elas iam colocando um a um os ingredientes numa tigela bem grande e batiam, batiam, batiam... Até a massa ganhar consistência. Enquanto isso, minha irmã mais velha se encarregava das claras em neve. Não podia perder o ritmo do braço para não desandar e ter de começar tudo de novo. Ao mesmo tempo, o forno a lenha já ia sendo preparado. Rapidinho, a gente já estava à mesa comendo um belo bolo e tomando um café passado na hora. E no coador de pano. Sem essa de cafeteira elétrica.
O restante do bolo, minha mãe colocava em um saquinho plástico e guardava no armário. Já as carnes, alimentos mais perecíveis, eram conservados na lata de gordura. Bem tampadinha para não atrair moscas e outros insetos. Como não havia geladeira, o leite era fervido para durar um pouco mais. Se bem que leite era uma coisa que não sobrava em casa.
E para vestir uma roupa bem passada, o ferro de passar funcionava com brasa, tirada também do fogão a lenha. O calor da madeira incandescente esquentava o metal. Com as pontas dos dedos, minha mãe ia respingando no tecido para ajudar no serviço. Rapidinho, subia a pilha de roupa na cadeira.
E quando chegava a noitinha, as velas pintavam de laranja os cômodos e faziam dançar as sombras nas paredes. E, vez ou outra, meu pai ligava o velho radinho de pilhas e a gente dormia ouvindo música caipira.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





