DEDO DE PROSA - O inverno no Pensamento
Os dias frios eram os melhores para colocar o pé na estrada. Pelo menos para nós, garotos e garotas da cidade que víamos no inverno uma oportunidade de saborear costumes inexistentes no ambiente urbano. Do grupo de aproximadamente 10 adolescentes, apenas uma morava no sítio. Era na casa dela - e de sua compreensiva família - que nos aboletávamos em finais de semana dos meses de junho e julho.
O trajeto até o Pensamento (bairro rural que abrigava a propriedade) era uma aventura à parte. Seguíamos um trecho em ônibus escolar, outro a pé - abrindo e fechando porteiras - e, ao final, nos aguardavam uns pangarés que nos permitiam chegar trotando ao destino final. Não nos importava se tinha quermesse programada para algum terreirão das proximidades. Juntos, promovíamos nossa própria festa.
Sob os olhares de pais zelosos, passávamos o dia à procura de galhos secos que colocariam o velho fogão de tijolos para trabalhar e alimentariam a fogueira, colhíamos espigas de milho verde e batata doce que mais tarde arderiam na brasa. Da velha tulha vinha o estoque de pipoca, ainda aguardando para ser debulhada (tarefa que era pura diversão para quem estava acostumado a comprar os grãozinhos amarelos já embalados). No pomar, nos deparávamos com pés de tangerina vestidos de alaranjado.
Com o cair da tarde, um perfume de açúcar queimado e gengibre invadia a pequena cozinha. Era o quentão que começava a ser preparado pela dona da casa e que, mesmo sem uma gota de álcool, nos faria esquecer da temperatura que só cairia com o passar das horas. Cansados do dia cheio, ficávamos ali, ao redor do fogo como nossos ancestrais, alheios às armadilhas do futuro e na mira das comadres, alertas para que não tivéssemos chances de pensar em algo que não fosse o milho assado passando do ponto.
Mal sabíamos que nosso luau caipira era um baita aprendizado. Tudo o que víamos ali - os cuidados com a terra; o espírito solidário da gente simples; a disposição para o trabalho; o respeito às regras da natureza - nos marcaria para sempre.
Os dias de sol claro e baixas temperaturas, como hoje, trazem a vontade de sentir novamente os cheiros e sabores daquele sítio no Pensamento. Mais do que isso: trazem o desejo de estar entre amigos queridos, rir muito e reencontrar um sossego já quase esquecido.
Silvana Leão é jornalista na FOLHA





