DEDO DE PROSA - O estilingue
Ninguém é santo o tempo todo. Todos nós, em algum momento e por alguma razão, nos desviamos do caminho ainda que temporariamente. Todos cometemos nossos pecados, nossas pequenas maldades ou vilanias. Na maioria dos casos, pelo menos no meu caso, os danos às outras pessoas são leves, até imperceptíveis.
Posso dizer que os transtornos maiores são meus. Fica sempre um quê de arrependimento, uma nesga de remorso, um grão de autocomiseração, martelando a cabeça e o coração. O sentimento só passa quando outro pequeno deslize sucede o anterior e dispara todo o mecanismo que acabei de dizer. Assim parece ser a vida, uma sucessão de altos e baixos, um ir e vir constante como as ondas que lambem a areia da praia.
Lá em casa, meu pai dizia que as pessoas devem sempre mirar o caminho do bem, ainda que as trilhas do mal tentem nos levar para outros destinos menos nobres. Bondade, justiça, honestidade são princípios inegociáveis. Em nenhuma circunstância, a maldade, injustiça, trapaça, injustiça, nos faz melhores.
No sítio era assim. Não havia pecado que ficasse sem punição nem boa ação que não recebesse elogios. Certa vez, meu pai me pegou com um estilingue nas mãos. Eu mesmo tinha feito o artefato com um galho de goiabeira, tripa de mico e um pedaço de couro.
Atirava a esmo em direção às árvores até que uma das pedras atingiu um ninho de canarinhos. Os passarinhinhos desabaram violentamente. Mas, protegidos pela segurança do pequeno envólucro feito com restos de raízes finas, grama seca chumaços de painas, sobreviveram à queda. Só um deles, acabou ferindo a asinha esquerda e, com dores, não parava de piar.
Testemunhando a cena, meu pai foi até mim e tomou o estilingue. Antes de falar palavra, quebrou meu brinquedo ao meio. Depois, me fez recolocar o ninho no lugar. Antes, pegou um lenço do bolso e envolveu delicadamente o filhote ferido, para que não passasse frio nem se debatesse demais.
Colocou o ninho em minhas mãos e decretou: ''ajeite isso onde estava''. Meio desajeitado, subi na árvore e reposicionou os canarinhos. De volta ao chão, ele transferiu para mim a responsabilidade de cuidar do bichinho doente. ''Esse pobre canarinho não tem culpa da sua falta de amor.'' Nunca mais me armei com um estilingue.
Luciano Augusto é jornalista na FOLHA





