No sítio, nos rincões do mundo no qual vivi até meus 21 anos, poucas vezes tive contato com o dinheiro de forma plena. De fato, toda minha família era desapegada de bens materiais e, na casa humilde em que vivíamos, a comida na mesa e o carinho que meus pais tinham comigo, meus irmãos e avós valiam mais do que os ''cifrãos e economias'' idolatrados na cidade.
Quando mamãe precisava de algo da venda do Adamastor, meu pai providenciava um mercadinho na beira da BR-478 e comercializava um pouco de tudo: legumes frescos, frutas bem madurinhas e até um salame temperado, especialidade da minha avó Lorena, que adorava incrementar nosso almoço de todo o dia.
O saldão do patriarca nos rendia, dependendo do movimento na rodovia, entre R$ 30 e R$ 40, sem contar as moedas que ficavam bem guardadas no meu bolso, a postos para o troco. O baixo valor arrecadado pelo meu pai era justificado pelo seu grande coração. Como ele não estipulava preço fixo por produto, bastava o cliente se interessar pela sua produção que ele vendia sem pestanejar. ''Pode levar, está realmente muito gostoso''. ''Quando puder, você me traz o restante'', eram as frases que ele mais dizia aos nossos clientes, que raramente voltavam para acertar suas pendências.
Mas, certa vez, ele se deparou com um homem que deu valor àqueles produtos da roça. Grisalho e com semblante sério, ele deu ao meu pai R$ 150 por dois quilos de beterraba, três de laranja e dois salames da vovó. Meu pai, como fazia com todos os seus clientes, agradeceu e continuou o seu trabalho normalmente.
No momento, fiquei surpreso com a falta de surpresa de papai frente aquele dinheiro que correspondia a quatro dias de nosso suor. Quando o questionei sobre o que havia acontecido, ele me explicou. ''Sabe o que é filho, como em nossa família, o dinheiro para aquele homem também não significa muita coisa. Ele simplesmente nos ofereceu um valor que considera justo por todo o nosso esforço na lavoura''.
Na mesma hora da conversa veio em minha mente tudo que meu pai sofre no seu dia a dia de trabalho. Então, realmente percebi que aquele dinheiro oferecido pelo homem a nós era mais do que válido frente a todo seu esforço. A partir dali, dei valor a cada centavo que ganhei quando deixei nossa propriedade e fui trabalhar e estudar na capital. Mais do que isso, dei valor a todos aqueles dias que passei com minha família ao longo das minhas duas primeiras décadas de vida. Infelizmente, este tempo ao lado deles, nenhum dinheiro do mundo pode trazer de volta.
Victor Lopes é jornalista na FOLHA

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