Entre as boas lembranças que guardo da época que cheguei a Londrina, anos atrás, estão alguns cheiros que para mim são a marca da cidade. Entre eles um perfume especial, inexistente na pequena cidade de onde vim: o de uma árvore de folhas grandes e sombra generosa, que se enche de frutos presos ao tronco, como se fossem enormes jabuticabas (estas sim, minhas velhas conhecidas).
Vi aqueles figos selvagens pela primeira vez nos jardins da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e para sentir o seu aroma não me importava de caminhar até o Centro de Ciências Biológicas, principalmente após uma chuva de verão. Sob a sombra de uma daquelas belas moradoras do Campus Perobal, me sentia inebriada.
Também foi de uma delas que, certa vez, colhi uma folha para escrever, a nanquim, um poema para apaziguar a saudade de meu grande amor. Tenho, portanto, um carinho especialíssimo pela espécie frondosa. Descobri, muito depois, que não fui a única a me encantar com sua beleza. Ela é citada em várias lendas e é alvo de simpatias e superstições.
Para minha surpresa, um dia descobri que de minha janela podia contemplar uma delas. Invejava os felizardos que podiam descansar sob o seu frescor nos dias mais calorentos. Certa vez até fui incumbida, por outro bicho do mato, a arrumar uma muda daquela ''árvore linda''. O matuto (que por acaso é meu irmão) achou que ela seria a alternativa ideal para apaziguar a convivência com as altas temperaturas do verão do interior paulista.
Para minha surpresa ainda maior, fui acordada dia desses, em pleno feriado, pelo barulho de uma motosserra. Barulho inconveniente, constante, que em pouco tempo se tornou insuportável. Indignada com tamanha falta de respeito ao direito que temos ao silêncio, fui para a janela. De lá, vi quando os primeiros galhos tombaram. Insistente, a máquina continuou a trabalhar por horas que pareciam intermináveis, até que os enormes frutos ficaram à mostra. Eram muitos - um sinal de que a saúde da figueira minha vizinha ia muito bem.
De repente, o respeitável tronco também tombou. Choramos eu e a árvore. Ambas sozinhas e em silêncio. Ela, porém, a seu jeito, derramando uma seiva esbranquiçada. A explicação para o corte cruel veio sem rodeios: suas raízes estavam crescendo demais. Na ânsia de cumprir o seu papel, a árvore começou a incomodar. Agora, no seu lugar, ficou o concreto, que não faz sujeira e não causa rachaduras, mas também não perfuma, não refresca, não purifica o ar, não acalma nossos olhos, não deixa a água da chuva molhar a terra. A figueira está morta, e eu, órfã de uma bela visão.
Silvana Leão é jornalista na FOLHA

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