Dedo de Prosa - O cardíaco Genaro
Nos idos da década de 1960, morávamos no sítio e nossos vizinhos eram uma família de descendentes de italianos, por sinal, muito trabalhadores. Trabalhavam de sol a sol e eram muito honestos. Compraram alguns pequenos sítios nas redondezas, frutos do trabalho e de suas economias. Com o passar dos tempos tornaram-se compadres dos meus pais. Eram em oito irmãos, sendo cinco homens e três mulheres, além dos pais.
O Genaro, o segundo filho, era um rapaz claro, avermelhado, com uma barriga protuberante e que não trabalhava na roça. Segundo a família, quando ele era pequeno, um médico do interior de São Paulo disse aos pais que ele tinha um "assopro" no coração e não podia fazer muito esforço. O Genaro então foi criado como "cardíaco". Estudou até a quarta série primária e depois de adulto, era ele quem tinha a conta no banco, vendia a produção agrícola da família, comprava os insumos para as lavoras, assinava os cheques das compras, ou seja, fazia o trabalho burocrático. Frequentemente via o Genaro às tardes na pracinha do vilarejo jogando dominó ou baralhos com os velhos. Dificilmente ia ao médico. Toda a vizinhança sabia que ele tinha um "assopro" no coração e era cardíaco.
Certa ocasião, ele pegou uma forte gripe e foi ao pequeno hospital do vilarejo. Doutor Mendes, um médico sábio, capaz e muito ético, também sabedor da fama do cardíaco Genaro, examinou minuciosamente o coração do paciente. Nada encontrou e constatou que o coração dele era um "relógio". Não disse nada ao Genaro e solicitou um raio-X do coração e um eletrocardiograma, justificando ao paciente que era para ver como estava evoluindo a sua doença. Genaro prontamente dirigiu a uma cidade vizinha maior e se submeteu aos exames requisitado pelo doutor Mendes. Ao retornar, confirmou o que seu médico previa. Genaro tinha uma saúde cardíaca perfeita.
A notícia se espalhou, não pelo doutor Mendes, mas sim pelas funcionárias do hospitalzinho , deixando o médico muito bravo. Passados alguns dias, os irmãos, do Genaro ficaram sabendo do resultado dos exames e procuraram o doutor Mendes, que após muitas tentativas de negar, acabou confirmando a boa saúde do irmão. Revoltados, os irmãos voltaram para casa e obrigaram os pais a tirar o Genaro da sociedade familiar. Deram a ele um pequeno sítio como agrado. Sem ter como trabalhar na lavoura, pois não tinha costume, e já casado e com dois filhos, foi para a cidade onde arrumou um emprego na prefeitura local para cuidar da pracinha onde jogava baralho e dominó.
Além de tudo isso, ainda tinha que aguentar as gozações dos antigos companheiros de jogo sempre dizendo que era um artista em ter enganado a família o tempo todo. Pobre Genaro.
Sidney Girotto é leitor da FOLHA





