Distante de todos e de tudo, morar naquela lonjura de sítio fez que minha época de aprendizado fosse diferente da maioria das crianças. Na casinha descompensada, perto apenas de meus pais, irmãos, avós, e daquela terra sem fim, demorei mais do que o habitual até conhecer uma sala. Mas, enquanto o conhecimento não chegava, a improvisação de meus familiares, principalmente de meu pai e avó, é que alimentaram minha mente na época das descobertas de menino.
Desbravando aquele sítio, me deparei com diversas situações que apenas a ciência poderia solucionar. Como nenhum dos meus parentes tinha a mínima ideia de como responder minhas perguntas, o jeito era improvisar. E como eles tinham o dom para isso!
Na calada da noite, os insetos que emitiam luz fosforescente foi um dos primeiros enigmas que queria resolver. Empenhado em descobrir o motivo daquele brilho tão forte, matei diversos vaga-lumes para tentar encontrar 'seus porquês'. Meu pai, percebendo que há dias estava empenhado naquela matança, me disse. ''Vou te dizer de onde vem a luz dos bichinhos. É a alma deles filho, e quando você os mata, a luz se apaga para sempre.''
Depois do remorso de menino ter passado por ter 'apagado' aquelas vidas, continuei minha jornada científica. A figueira-vermelha me desafiava com suas raízes poderosas e profundas. Vovó, percebendo que eu não parava de cavar na busca pelo fim de tudo aquilo, me explicou. ''Querido, as raízes da figueira são como suas pernas. Enquanto mais fortes e compridas, por mais tempo ela vai poder ficar de pé e contemplar toda a natureza criada por Deus.''
O sopro do vento em meio às árvores, o coaxar do sapo na procura de sua cara metade, os caminhos trilhados pelas minhocas na terra úmida. Tudo era motivo de perguntas e respostas cada vez mais inusitadas do pessoal lá de casa.
Depois de certo tempo, quando finalmente a escola começou a fazer parte da minha vida, a cada nova descoberta encontrada nos livros percebi que tudo aquilo que papai e vovó diziam era fruto da imaginação deles.
Quando resolvi explicá-los como realmente as coisas funcionavam, notei que tudo aquilo que falava não tinha nenhum sentido para eles. Percebi que tudo o que eles tinham aprendido com seus antepassados era o que dava sentido àquelas vidas vividas tão distantes do ''mundo''. Continuei na busca pelo conhecimento, mas optei por deixá-los longe de tudo aquilo. Não queria apagar o brilho de suas almas, como um dia fiz com aqueles vaga-lumes.
Victor Lopes é jornalista na FOLHA

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