Nos dias de julho, havia sempre um vento contínuo que soprava no sítio onde morava. Era uma ventania fria e forte que começava a zunir pouco antes das 10 horas e persistia até o começo da noite. Parecia que acompanhava o ritmo do sol. E nesta época, a molecada se alvoroçava e corria para o alto do pasto, todos com uma pipa - que a gente chamava também de papagaio - embaixo do braço.
Em praticamente todas as famílias, a rotina das crianças era a mesma durante as férias do meio do ano. Pela manhã, os meninos ajudavam os pais na roça ou em alguma outra tarefa mais dura, enquanto as meninas ficavam em casa auxiliando as mães em tarefas domésticas. Do meio da tarde em diante, era a alforria. Os moleques iam jogar bola ou soltar pipa. As meninas se reuniam em turminhas mais discretas, em brincadeiras que só elas entendiam.
De minha parte, adorava o processo de construção das pipas. Primeiro ajeitava um papel bem bonito, normalmente guardado de algum presente recebido. Depois, saía à caça de um pedaço de bambu para confeccionar as varetas. Arrancava três ou quatro filetes e com o canivete emprestado - escondido - do meu pai ia trabalhando a madeira até deixá-la lisa e tão fina quanto conseguisse.
Depois, seguia para a máquina de costura de minha avó e, de lá, surrupiava carretéis das linhas mais fortes. Elas serviam tanto para amarrar a armação de madeira quanto para montar a rabiola. E separava o carretel mais cheio para soltar a pipa depois de pronta.
Concluída a produção, passava ao segundo e decisivo passo: o teste de resistência. Do lado de fora de casa liberava a pipa ao vento e ficava analisando se pendia para algum lado, se não estaria leve ou pesada demais, se o papel suportaria os ventos mais altos, se as franjas seriam suficientes para ajudar na sustentação e equilíbrio da máquina de voar artesanal.
Quando necessário, fazia os ajustes e pronto. Junto com outros colegas, subia o morro que ficava perto de casa. Lá no alto, o vento corria livre, sem ter como obstáculos as casas, árvores, postes, cercas. Sentávamos sobre as corcovas dos cupinzeiros e passávamos horas por ali.
Diferente de hoje, nossa diversão não era armar a linha com cerol para derrubar a pipa dos demais companheiros de aventura. Disputávamos quem tinha a melhor técnica, quem conseguia fazer mais malabarismos. As pipas dançavam para lá e para cá, rodopiavam violentamente como se tivessem entrado em desalinho até retomarem o voo. As aves de papel colorido salpicavam o céu e deixavam mais coloridas as tardes de julho.
Por fim, já quase anoitecendo, batalhávamos para ver quem conseguia chegar até o fim da linha do carretel. Quando isso acontecia, o autor da façanha tinha o direito de batizar sua pipa com algum nome que lhe fizesse sentido.
Luciano Augusto, jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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